POMBA BRANCA por Rafael Alvarenga

Faz tempo que ao entrar e sair pelo portão me deparo com uma pomba branca. Então me impressiona a limpidez da sua plumagem: a cada noite aquelas penas morrem, para renascerem brilhosas e escovadas pelos raios da manhã seguinte.

Vejo que é uma pomba ainda desacostumada com o mundo. Tem olhos esquivos e muita confiança nos gatos. Além disso, não sei o que ela pretende indo em direção ao terreno baldio, embora concorde que ele seja o último refúgio dos meus olhos nessa rua de muros tão altos.

A pomba branca está perdida. É como um estrangeiro que não fala nossa língua e não tem dinheiro para pegar um ônibus na rodoviária. E não pensem que estamos diante de uma pomba tola. Pois em tempos de guerra voar não interessa tanto a quem não tem munição. De mais a mais, ontem os pardais disseram que os gaviões estão famintos e que a paz é meramente um desejo humano, não um fenômeno natural.

Nesses dias chuvosos, saí com meu guarda-chuva a sua procura. Iria dizer-lhe que a vida tem suas urgências e que ela não perderia sua graça excelsa se fosse, uma vez por semana, rodear o pipoqueiro da praça em busca de um punhado de milho. Mas não a encontrei. Talvez tenha fugido ou simplesmente descoberto abrigo.

O mundo não é mais o mesmo. Aliás, ele nunca será o mesmo. E até a pomba branca, que há muito não passava por aqui, sentiu as mudanças. No entanto, é nesse mundo que vamos viver e como disse o poeta é justamente por ele que vale a pena lutar!

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 26 de agosto de 2019

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