ANTÔNIO ÂNGELO, FOTÓGRAFO DA NATUREZA.

Antônio Ângelo Trindade Marques foi fotógrafo da natureza, especialmente de pássaros e defensor incansável da preservação ambiental. Antônio, falecido há alguns meses, era apaixonado pela Ilha do Japonês, parte do Parque Municipal da Boca da Barra. A viúva, Elma Martins, está programando uma exposição de fotos do cabofriense talentoso e apaixonado por sua terra.

A PONTE

A ponte

Eu também conheço aquela ponte Uma das mais bonitas que você já viu

Atravessei-a inúmeras vezes em minha imaginação

Não somente à meia-noite

Mas madrugadas inteiras

Sonhando encontrar palavras verdadeiras

Que pudessem tocar o teu coração

Eu também conheço aquela ponte

Aquela que nunca atravessamos juntos

Que nunca atravessaremos A não ser em sonho

Conheço o abandono de tantos

Que por ela passaram tão sozinhos

A ponte por um instante desejou ter braços Que os abraçassem em seu caminho, com imenso carinho

Assim como eu desejei ter passos

Que o acompanhassem em seu destino

Eu também conheço aquela ponte

Uma das mais bonitas que você já viu

Mas não conheço você, sua beleza

Tanto quanto gostaria

A beleza dos olhos viajantes

Sempre à procura do belo

Sem saber que desde sempre

Esteve em você.

Elvira Campos Barroso Alves

Foto: Péricles Rosa da Nova

FALTA PROJETO E COMPETÊNCIA

Nas eleições de 2018 a vitória de um candidato cuja única experiência política era um mandato de vereador, foi considerada excepcional por boa parte da população cansada da chamada política tradicional.

A população tinha e continua tendo toda a razão para o descontentamento. Passadas duas décadas de administrações recheadas de dinheiro pelos royalties do petróleo, Cabo Frio não tem quase nada.

A ineficiência e o caos político administrativo foram propícios aos ralos, que acabaram por drenar os bilhões que jorraram sobre a cidade.

Não foram apenas as riquezas que se esvaíram nas últimas décadas. Com elas foi embora também à esperança de dias melhores e mais justos sonhados pela maioria da população.

Essa imensa desesperança é que levou a população a optar por alguém que, embora fosse vereador e da bancada de Alair Corrêa, se apresentava como o “não político”, capaz de dar uma “vassourada” nos políticos tradicionais e começar novos tempos, sem as velhas impurezas.

Pois bem, o tempo passou e o ‘outsider’ Adriano Moreno, se revelou tão antigo quanto os dois últimos prefeitos, aos quais criticava com imensa severidade.

O prefeito Adriano Moreno encabeçou uma grande farsa durante a campanha eleitoral? Não! Seria cruel demais para com a população que o elegeu.

A ‘entourage’, que tomou conta da prefeitura só agora percebeu, que para ter sucesso é necessário ter projeto e competência. Apenas boa vontade não basta.

PEQUENAS DOSES

  • Em todos os cantos de Cabo Frio não se fala em outra coisa: a exoneração de centenas de comissionados. Quem comprou carro à prestação e encomendou móveis novos pra sala de jantar, não cabe em si de preocupação.
  • Como a readmissão será pontual já começou a romaria nos gabinetes dos vereadores da base do governo. Outro ponto de visitação para o tradicional “beija mão” é a secretaria de fazenda, logo ali na Rua Major Bellegard.
  • Há algumas semanas, não se sabe exatamente a razão, o ambiente na câmara é festivo. Os gabinetes dos vereadores da base do governo estão mais alegres e pontualmente os mais procurados. Deve ser a decoração do ambiente.
  • Alguns chamam de “1º Ministro”, outros de  “Havengar de Adriano”. Independente do apelido, o secretário de fazenda demonstrou prestígio: conseguiu interromper a fala do prefeito e acintosamente mudou de assunto.
  • A “coletiva de imprensa” deixou clara, mais uma vez, a inexperiência política dos membros do governo. Tanto o prefeito, como o “1º ministro” e os outros secretários bateram cabeça todo o tempo. Em termos políticos, o anúncio da reforma administrativa foi um desastre.
  • O certo é que com apenas dez meses de governo, o prefeito Adriano Moreno e o seu grupo enfrentam sério desgaste político. O mandato é curto e as trapalhadas o tornaram ainda menor.
  • As dificuldades do governo são muito grandes e a administração não conseguiu justificar tanta ansiedade para chegar ao poder. A agressividade mostrada nas redes sociais durante a campanha eleitoral de 2018 não foi transformada em ações que se refletissem de maneira positiva junto à sociedade.
  • A prefeitura de Adriano Moreno frustrou grande parte dos seus companheiros de campanha: muitos já se viam antecipadamente sentados nas macias e generosas poltronas do Palácio Tiradentes. A maioria, entretanto ficou zanzando na praça em frente da prefeitura.
  • Hoje essa turma, com raríssimas e honrosas exceções, esculhamba o prefeito e sua equipe em todas as esquinas da cidade. Afinal, o “faz-me rir”, isto é, o “caraminguá” não chegou ao bolso.
  • Interessante é que de um modo geral essa gente votou em Bolsonaro, Witzel e Adriano, contra a corrupção e a favor da moral e dos bons costumes. A revolta contra Adriano Moreno não por nenhuma dessas nobres causas, digamos assim, mas pelo não recebimento das “portarias” ambicionadas.
  • O grupo do PSL, na Região dos Lagos, foi obrigado a “baixar a bola” após a acachapante derrota, em Iguaba. A vitória de Vantoil Martins contrariou o esquema bolsonarista, que considerava a vitória como “favas contadas”.

O GOVERNO TEM 1º MINISTRO

O governo de Adriano Moreno está começando, ou melhor, recomeçando, tentando construir uma unidade, após 10 meses, batendo cabeça.

Após confrontos e sacolejos na área da Educação, o governo tenta se acertar com a reforma administrativa, que, certamente dará novo perfil político para a prefeitura de Adriano Moreno.

É um novo arranjo, completamente diverso do anterior, multifacetado, cheio de contradições, porém mais rico tanto na política, quanto  ideologicamente.

A partir de agora o governo tende a ser monolítico, com a hegemonia do setor mais conservador e afinado com o que o prefeito sempre representou.

Fica claro também que tem um 1º Ministro, reservando-se ao prefeito o papel de um presidente, no regime parlamentarista. Com outras palavras, ou mesmo “papo reto”, quem governa e controla o dia a dia é Antônio Carlos Vieira, que mais uma vez ampliou seu espaço.

Os caciques da câmara, a quem cabe aprovar a reforma administrativa, serão os fiadores dessa nova formatação ou engenharia de governo. Este aval será dado mediante o crescimento da influência dos vereadores nas decisões político-administrativas, mais atentas a realidade eleitoral.

O governo, destrambelhado, gastou grande parte do seu cacife político e resta pouco tempo para acertar. Estamos em junho e 2020, ano de eleição, está quase batendo a porta.

Acerta agora ou não acerta mais.

PEQUENAS DOSES

  • Na coletiva de imprensa, coordenada pela jornalista Mônica Marins, na prefeitura de Cabo Frio, ficou clara a ascendência do secretário de fazenda Antônio Carlos Vieira. Em determinado momento, interrompeu o prefeito, que estava falando sobre a secretaria de educação, tomou a palavra e disse que preferia falar sobre assuntos positivos.
  • O imbróglio entre Adriano Moreno, Antônio Carlos Vieira e o ex-secretário de educação Cláudio Leitão promete muita notícia para a mídia. Deve fazer a alegria das bancas de advocacia de Cabo Frio e Rio de Janeiro.
  • Na coletiva, o prefeito disse que o então secretario de educação, Cláudio Leitão, fugiu ao estabelecido no início do governo e inchou a secretaria, em cerca de mil funcionários. Adriano Moreno disse que a nova secretária de educação, Márcia Almeida, está fazendo o levantamento, porque a educação tem RH próprio.
  • A reforma administrativa cria a secretaria institucional de governo, ocupada por Antônio Carlos Vieira, que vai concentrar grande parte dos poderes do Palácio Tiradentes. Na fazenda fica Clésio Guimarães Faria, nome ligado ao ex-prefeito Marquinhos Mendes.
  • Deveria espantar, mas não espanta a rotina com que as autoridades municipais maltratam a Língua Portuguesa. A julgar pela infinidade de contas contraditórias apresentadas, com a Matemática acontece problema idêntico. Este é o Brasil que se julga antenado com o futuro.
  • Os que trabalham contra a Educação, a Ciência e acreditam que os avanços tecnológicos são fruto das adivinhações de Olavo de Carvalho, o “Astrólogo da Virgínia”. O discurso de Barack Obama, em São Paulo foi um discreto “puxão de orelha”.
  • São tantos os cabofrienses que participaram da eleição suplementar, que elegeu Vantoil Martins, prefeito de Iguaba, que a taxa de desemprego em Cabo Frio deve diminuir. O IBGE vai dar aquela conferida.
  • O grande derrotado na eleição de Iguaba foi o PSL, na figura do deputado Sérgio Azevedo Filho, que apostou em Washington Tahin, que amargou o 2º lugar, perdendo por expressiva diferença de votos.
  • A revoada de cabofrienses para Iguaba deve se intensificar nos próximos dias. Segundo os especialistas no assunto, o médico Carlos Victor, irmão do ex-prefeito de Cabo Frio, Marquinhos Mendes, deve ser o novo secretário de saúde de Iguaba.
  • O tal motorista que conseguiu capotar na Ponte Feliciano Sodré, saiu do carro, invadiu o Cemitério Santa Izabel e refugiou-se justamente no túmulo onde está enterrado o ex-prefeito de Cabo Frio, Otime Cardoso dos Santos, o Timinho. O abusado ligou para a família e não esqueceu de carregar para o túmulo a lata de cerveja. Como diria Vovô Bibiu, “durma-se com um barulho desses”. Dá uma crônica sensacional.

ACABOU A CARA DE PAISAGEM

A reforma administrativa do governo de Adriano Moreno foi construída pelo secretário municipal de fazenda, Antônio Carlos Vieira, conhecido como o mais pragmáticos de todos os secretários.

O que se propaga é que a reforma busca, em meio à crise, assegurar a governabilidade da prefeitura de Adriano Moreno, envolvida em seguidas crises, talvez mesmo de ordem existencial.

Segundo colocado na disputa eleitoral, o grupo político que subiu ao poder para um mandato tampão era uma “colcha de retalhos”. Gente de diferentes origens políticas e identidades ideológicas ocupavam a administração: os choques, inevitáveis.

Ao longo dos últimos meses bolsonaristas (extrema direita), liberais, marxistas do PC do B e até anarquistas ocuparam postos decisórios no governo. É óbvio, que não poderia dar certo, porque as propostas são profundamente diferentes.

É uma ilusão imaginar que essa salada ideológica poderia resultar na eficiência tão difundida e pretendida pelo governo. Logo os conflitos começaram a eclodir. A luta pela hegemonia e estabelecimento das prioridades nas políticas públicas municipais paralisaram o governo.

A reforma dá a prefeitura perfil bem mais conservador, com o domínio político dos setores mais atrasados, onde as questões sociais perdem espaço.

É a busca da estabilidade e unidade dentro do conservadorismo. Afinal, Adriano Moreno abandona sua cara de paisagem e assume sua verdadeira identidade: mesmo correndo por fora, um conservador.

PEQUENAS DOSES

  • Os ‘outsiders’, de extrema direita, que estiveram em alta nas eleições de 2018, estão em franco processo de decadência. O acentuado desgaste do governo de Adriano Moreno, em Cabo Frio e a derrota do PSL bolsonarista, em Iguaba, são reveladores do processo de descida da ladeira.
  • Para que o desastre político e administrativo do governo de Adriano Moreno não fosse completo é que foi elaborada a aliança, nem tão discreta, com o grupo do ex-prefeito Marquinhos Mendes.
  • O nervosismo tomou conta dos que tem cargos comissionados, as famosas portarias. Ninguém sabe como vai ficar a situação do “Trem da Alegria”, tão festejado no início do governo. A tendência é que sofra inúmeras baixas.
  • O filtro político deverá ser a norma para a manutenção ou dispensa dos cargos comissionados e os vereadores terão bem mais influência dentro do governo. Miguel Alencar, Aquiles Barreto e Luis Geraldo, certamente ampliarão sua força política.
  • A reforma administrativa vai reviver o fenômeno, incrementado na cidade pelo então prefeito Alair Corrêa: o famoso “beija mão”. No auge do “alairzismo” tinha até que tirar o tradicional 3 X 4, lá sede do piscinão.
  • Na época da construção do “piscinão de alair”, também chamado de “parque das águas”, Alair Corrêa anunciou que tinha descoberto um poço de água cristalina onde só havia terra árida e água salobra.
  • A população espera que a anunciada recuperação das praças da cidade comece pela Praça Porto Rocha, que não precisa ser recuperada e sim desfeita e reconstruída. A praça que existe não faz justiça à história de Cabo Frio, muito menos a Matriz Histórica de Nossa Senhora da Assunção.
  • O deputado Mauro Bernardo apresentou na ALERJ projeto de lei, com o objetivo de reduzir o valor do pedágio, na RJ-124 e isentar os idosos e os deficientes físicos. Enquanto isso o deputado bolsonarista, Sérgio Azevedo Filho, em discurso, atacava a universidade pública, a UERJ.
  • A Folha dos Lagos online, uma das plataformas em que atua o Grupo Folha dos Lagos, leia-se Moacir e Rodrigo Cabral, está bem mais dinâmica, ocupando cada vez mais espaço, na mídia da Região dos Lagos.
  • A coluna de hoje sobre Educação –“Entre mitos e mentiras”, do Professor Paulo Cotias, está especialmente interessante, esclarecedora e merecedora de um bom debate entre nossos leitores.

Educação: Entre Mitos e Mentiras

Há alguns anos atrás, quando ainda estava desenvolvendo minha dissertação de mestrado sobre o processo histórico de formação de professores no século XIX, tive a oportunidade de travar alguns diálogos acadêmicos interessantes e um em especial, também tema de dissertação de uma colega de curso, sempre me chamou atenção. O que os professores lêem em seu processo de formação.

Deixou-me particularmente intrigado o fato da pesquisa, ainda que feita em um campo de análise restrito, ter apontado indícios de que a literatura mais consumida por professores formados ou em processo de formação pertencia ao campo da auto-ajuda. Só esse fato merece nossa análise mais detalhada, mas que faremos em outro momento. Para o momento o que nos traz a conversa são dois fatos que ilustram bem as razões pelas quais a formação passa por esse problema.

O primeiro é a mediocridade da produção literária para consumo dos educadores. Em outras palavras, a educação é um campo onde qualquer um tem se aventurado a analisar e dar diretivas de ação. Todos se consideram aptos para dizer como resolver os problemas educacionais ou como a escola e professores devem desenvolver suas finalidades e práticas de modo a fazer a “educação correta”.

O outro fato, conseqüência ou complemento do primeiro, é o de que qualquer um se considera apto para desenvolver tarefas de cunho educacional. Inclusive para se tornar dirigente de importantes instâncias diretivas da educação. São secretários, ministros, dirigentes que ou nunca pisaram em uma sala de aula, ou sequer possuem estofo de prática e formação para cuidar de uma área tão sensível e vital.

Pior, alguns até mesmo mentem descaradamente sobre suas capacidades e qualificações. E isso seria somente cômico, se não tivesse conseqüências trágicas. Talvez por isso ainda estejamos diante de alguns mitos e mentiras que viralizam como verdades educacionais.

E 2011 a Revista Nova Escola trouxe 15 mitos relacionados à educação em uma de suas matérias.

Em uma releitura, podemos reuni-los em cinco: 1) Missão da educação é formar cidadãos. Também, mas não apenas. Com a explosão de temáticas atribuídas muitas vezes fica difícil dar conta dos elementos curriculares necessários no processo de formação. Os mais a direita acusam doutrinação, os mais a esquerda que a escola é pouco militante. Ambos se esquecem de que ali é um espaço profissional de formação científica e humanística e para que tanto as necessidades acadêmicas quanto as sociais sejam supridas, uma ótima aposta é diminuir a sobrecarga docente com a criação de espaços e atividades escolares transversais que tratem dos temas da realidade. Da mesma maneira é um equívoco apostar em meritocracia escolar por meio de rankings, premiações e coisas do gênero. Isso só reforça que a educação possui um fim apenas, a aprovação e o sucesso que não levam em conta o crescimento, a evolução e o aprendizado conquistado por cada educando.

2) Ser professor é um dom. É uma profissão e para isso deve ser encarada como algo possível de ser desempenhado através de esmerada formação teórica e técnica. Se é um dom, qualquer um pode ser. Há uma enorme diferença entre apreciar o desempenho do ofício e o que podemos chamar de dom. Se aceitarmos isso acreditaremos que apenas alguns nasceram com esse “chamado” e se nasceram com ele, à formação é relativa. Ou seja, se sobrar “amor e dedicação”, elas completam a escassez de conhecimento e aptidão. Essa visão acaba escorregando para uma visão caritativa da educação, sobretudo para com os mais pobres. Ou seja, a idéia de que os pobres não são capazes de aprender, possuem menos inteligência ou teriam mais dificuldades cognitivas para a aprendizagem. Mentiras sem nenhum fundamento científico e que são regularmente contadas. As diferenças sociais são uma coisa, capacidade de aprender, outra completamente diferente. Mas são desculpas convenientes para a crença de que o problema da aprendizagem está na pessoa e não no sistema.

3) Repetência gera aprendizagem. Tão falso quanto à aprovação automática. Acreditar que a possibilidade da repetência é um instrumento que garante a aprendizagem e o controle dos alunos é uma frágil ilusão. Também soa descabido que não se deve avaliar. O que precisamos considerar é a criação de mecanismos que possibilitem a recuperação de conteúdos não aprendidos de modo concreto sem que o aluno seja impedido de avançar em seus estudos e tenha que rever novamente os assuntos que já domina e que possui desempenho satisfatório. É como ter que desmontar e montar todo um automóvel em função de um amassado na porta. Também é importante considerarmos aqui de que a culpa pelo mau desempenho está no tipo de família que o estudante possui. Tem sido comum a frase de que famílias mal estruturadas geram alunos mal-sucedidos. O conceito é perigoso. Ou seja, qualquer coisa que não se assemelhe a um modelo de família tem sido considerado como pré-condição de fracasso. A família é um elemento importante no acompanhamento e ampliação de expectativas educacionais, mas importa mais o como age do que o tipo de arranjo familiar que o aluno possui.

4) Ampliação desenfreada de creches. Uma das mais elementares demonstrações de amadorismo educacional é a defesa desenfreada de ampliação de creches, com a simples justificativa de que é necessário que alguém tome conta das crianças cujos pais precisam trabalhar. A educação infantil não pode mais ser confundida com um depósito de crianças. Ela precisa ser trabalhada sob a concepção de que é um importante momento de socialização e desenvolvimento específico. O mesmo vale para a alfabetização. Ainda paira a crença de que a alfabetização é um processo que leva uma vida toda, sobretudo com relação às classes populares. Nos envolvemos com a língua e as linguagens por toda a vida, mas a capacidade de decodificação e as habilidades de lecto-escritura são comprovadamente acessíveis mediante um trabalho de médio prazo. Há quem acredite que livrinhos ilustrados com histórias ridículas e descontextualizadas são preferíveis a narrativas com menos imagens e mais qualidade textual.

5) A escola particular é melhor do que a pública. Pode ser mais bem equipada, mas isso não necessariamente a torna melhor de modo natural. A crença de que o sistema privado é superior ao público é uma engrenagem que se retroalimenta de índices de posicionamento em universidades públicas e inserção em mercado. E, obviamente, para cada expectativa de formação e profissionalização, há um preço a ser pago. Mas com a progressiva adoção de sistemas fechados de ensino, as apostilas e sites, nota-se a mediocridade funcional dos conteúdos e a incapacidade de docentes e alunos de ampliar suas experiências. Modelo robotizado com expectativas de descobertas reduzidas a um mínimo controlado.

Existem outros muitos mitos e muitas outras mentiras. E delas ainda falaremos aqui ou onde tivermos a oportunidade de uma boa conversa.

CABO FRIO – COMO SOBREVIVER?

Não são poucos os moradores de Cabo Frio incomodados com o crescimento desordenado, o empobrecimento e os múltiplos sinais de degradação da cidade.

Alguns acreditam que não há mais solução e que Cabo Frio cada vez mais se tornará um mero balneário, incluso na zona metropolitana da capital.

Há aqueles que providenciam a mudança e arrumam as malas, buscando outras paragens com melhor qualidade de vida. Representam a desesperança que as últimas administrações estão deixando como herança para a sociedade.

Existem os que fazem de Cabo Frio apenas local de negócios, de lucros rápidos e não estão “nem aí” para questões fundamentais a existência de uma cidade generosa e com boa qualidade de vida.

Esse destino amargo, cada vez mais próximo e palpável, se choca com a paisagem belíssima e a linda e heróica história de Cabo Frio, que desde os seus primórdios alimenta a história brasileira.

Não existem “salvadores da pátria”, mas o esforço conjunto dos agentes políticos, sociais e econômicos para que a cidade possa sair do buraco.

É preciso que se estabeleça uma agenda comum, alguma forma de consenso a todos os atores protagonistas desse processo para que Cabo Frio possa ter chance de sobreviver com dignidade a essa “máquina de moer gente”, como dizia Darcy Ribeiro.

PEQUENAS DOSES

  • Caciques da política cabofriense ficaram surpresos com o bom nível do debate suprapartidário promovido pelo ex-prefeito José Bonifácio, na noite de ontem, no bairro Palmeiras.
  • O Café per Tutti no centro da cidade esteve animado na tarde de ontem. A grande discussão dessa vez (são tantas) foi sobre o embate entre Cláudio Leitão e Antônio Carlos Vieira e suas repercussões políticas.
  • O ex-deputado federal Paulo César Guia apareceu nas redes sociais da Internet em companhia do advogado Cláudio Mansur. Paulo César, embora namore o retorno a câmara federal, se colocou como futuro candidato a prefeito de Cabo Frio.
  • Religioso, sempre com citações bíblicas, o ex-vereador e secretário de saúde Dirlei Pereira, é a principal voz da oposição a Adriano Moreno nas ondas das emissoras de rádio. Há quem diga que Dirlei é candidato a prefeito numa possível emancipação de Tamoios.
  • Alguns políticos cabofrienses, que conviveram na câmara com Dirlei Pereira, estão espantados com a transformação do ex-vereador. Seria a prova viva que a religião “opera sem deixar cicatrizes”.
  • A tentativa de impedimento do prefeito Adriano Moreno não teve a repercussão política imaginada pelo vereador Rafael Peçanha. Segundo alguns colegas o vereador ampliou seu isolamento no legislativo.
  • As redes sociais da Internet são bom instrumento para avaliar os possíveis candidatos a câmara. A grande maioria se rendeu as táticas fascistas, típicas do bolsonarismo.
  • As bandeiras rotas, mas de fácil repercussão, tem sido as preferidas, fazendo das denúncias baratas e irresponsáveis a mola mestra de possível ascensão política e eleitoral. A ação parece coisa do MBL e assim por diante.
  • O retorno do empresário José Martins leia-se Restaurante do Zé, promete aumentar o alvoroço em torno do “senadinho”. O local, de frente para o Canal do Itajuru compete com o “Café per Tutti”, o “Parada Obrigatória” e o “Bar do Jair”, em movimentação política.
  • De um lado a extrema direita tomando vento e areia na cara, na Praia do Forte, em rápida e diminuta manifestação. Do outro, professores e alunos numa grande e animada passeata em defesa da Educação. Pois é, obscurantismo e repressão de um lado e de outro a luta pelo conhecimento, o ensino público, a ciência e a tecnologia.
  • Em visita ao Brasil o ex-presidente dos EUA, Barack Obama, deu declaração, que atingiu como uma bomba o governo de Bolsonaro. Obama defendeu o ensino público e os investimentos em ciência e tecnologia. Para bom entendedor “um pingo é letra”.
  • Alguns atentos leitores reclamaram junto ao editor do Blog do Totonho, a utilização do termo ‘cabofriense’ e não ‘cabo-friense’. O editor pede desculpas pelo “erro”, mas vai continuar a usar ‘cabofriense’, porque considera feio e inadequado ‘cabo-friense’. Estamos combinados.

DESMILITARIZAR

Segurança pública tem sido tema recorrente na agenda pública, mas sua transformação profunda nunca esteve em cogitação. Em Desmilitarizar: segurança pública e direitos humanos, o antropólogo Luiz Eduardo Soares coloca em questão as razões para o imobilismo brasileiro em face da questão da violência. A partir do entendimento dos problemas diagnosticados tanto na esfera pública quanto na privada, o autor oferece propostas e orientações claras para superá-los.

Os quatorze ensaios aqui reunidos estão estruturados em quatro pilares temáticos: polícia, drogas, raízes da violência e direitos humanos. Somados à introdução e ao posfácio, formam um conjunto coeso que demonstra que a problemática da violência letal, inclusive a praticada pelo Estado, é decisiva para a reconstrução democrática e o combate ao racismo, aos preconceitos e às desigualdades. Não ficam de fora análises sobre as contraditórias UPPs, a guerra às drogas, a intervenção militar no Rio de Janeiro, o pacote anticrime do ministro Sérgio Moro e sobre relações entre o poder público e o crime organizado. E o livro conta ainda com um Glossário sobre segurança pública.

Desmilitarizar vai além de uma reportagem jornalística ou mesmo da pesquisa acadêmica, seu maior objetivo é provocar mudanças em como encaramos a segurança pública no Brasil. Trazendo sua experiência como secretário Nacional de Segurança Pública, subsecretário de Segurança e coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania do Estado do Rio de Janeiro, Luiz Eduardo Soares dirige-se não só a especialistas, mas também a ativistas, movimentos sociais, sindicatos e associações de policiais.