COMO GARANTIR O “FAZ-ME RIR”

Acusado de fazer cara de paisagem diante de decisões espinhosas, Adriano Moreno, ganhou fama de inerte e incapaz de liderar o processo político dentro do município.

Há quem diga pelos bares, cafés e restaurantes que o governo está mesmo nas mãos do seu “1º Ministro”, o secretário de fazenda, “engenheiro de finanças”, Antônio Carlos Vieira.

Segundo as “más e boas línguas” o secretário, que não teve sequer um voto, é quem manda “faz e acontece”, na administração pública municipal. Teria então mais poder que o próprio prefeito.

A partir da construção política da reforma administrativa, com apoio em setores do legislativo, Antônio Carlos Vieira é quem estaria selecionando os exonerados para serem reconduzidos ou não aos cargos.

A recondução ou não vai dar a exata medida de quais são os secretários do eixo central do poder e aqueles que estão na periferia e dependem da boa vontade do “1º Ministro”.

Sem apoio para se manter nos cargos e garantir o velho e bom “faz-me rir” no final do mês, muitos se retiram, pensando lá na frente, isto é, em 2020.

Enquanto isso o governo inicia uma ofensiva publicitária para dar ao prefeito a imagem de simpático homem de ação. A essa altura dos acontecimentos a tarefa será bastante árdua, mas em Cabo Frio tudo é possível.

PEQUENAS DOSES

  • Perguntado na rede social, o vice-prefeito Felipe Monteiro, disse que o PC do B está no governo Adriano Moreno, mas mantém sempre o debate dentro do partido e em todos os níveis. O que isso significa? Só entrevista mais longa poderá responder.
  • Após o imbróglio mal resolvido entre o grupo político de Adriano Moreno e o PDT, Felipe Monteiro foi convidado e aceitou ser companheiro de chapa de Adriano: o cargo de vice-prefeito literalmente acabou por cair no colo do PC do B. O partido tem o seu nicho no governo.
  • As figuras mais fanáticas da extrema direita, de alma bolsonarista, festejaram a saída da dupla Cláudio Leitão e Denize Alvarenga do governo e querem empurrar mais gente pra fora. A turma quer ampliar ainda mais o espaço que possui dentro da prefeitura.
  • A calçada em frente ao Charitas, feita de muito má vontade, no governo de Marquinhos Mendes, está se desmanchando: uma simples calçada em frente a um dos prédios históricos mais importantes da cidade e nada se faz. Bem acomodados nas janelas do Charitas os cupins se divertem.
  • Na Rua Raul Veiga, bem atrás do Charitas, um vendedor de caldo de cana, resolveu que todos têm a obrigação de desfrutar e compartilhar da sua fé: um aparelho de som, de alta potência, brinda os passantes, com hinos gospel. A cidade está uma zona!
  • O pior é que o ambulante está localizado na calçada dos fundos do Charitas, na lateral do “Ismar Gomes”, que, para boa informação ao distinto público, é uma antiga escola da rede pública estadual. Pelo menos respeito!
  • Existem lugares, no centro da cidade, que o número de ambulantes e camelôs é tão grande, que o acesso a calçada é difícil. É uma verdadeira feira a céu aberto. Isso sim é uma balbúrdia.
  • O professor José Américo Trindade, o Babade, continua resistindo a modernidade do celular, mas não abre mão do ar refrigerado. Munido de uma manta, não perde nenhum jogo das meninas do Brasil: vôlei e futebol. Com os rapazes ele não se sentiu a vontade: frustração!
  • O prefeito Adriano Moreno inicia uma ofensiva política no sentido de melhorar a imagem do governo. A área mais sensível tem sido a educação, que causou grande desgaste, com os embates entre o secretário de fazenda Antônio Carlos Vieira e o então secretário de educação, Cláudio Leitão.
  • O prefeito vai ter que correr muito atrás: segundo os rumores das paredes do Palácio Tiradentes, o PC do B está insatisfeito e o PSB acabou de deixar o governo, reclamando, entre outras coisas de falta de transparência.

O BAILE DO JUDEU – Bernardo Guimarães

Ora, um dia, lembrou-se o Judeu de dar um baile e atreveu-se a convidar a gente da terra, a modo de escárnio pela verdadeira religião de Deus Crucificado, não esquecendo, no convite, família alguma das mais importantes de toda a redondeza da vila. Só não convidou o vigário, o sacristão, nem o andador das almas, e menos ainda o Juiz de Direito; a este, por medo de se meter com a Justiça, e aqueles, pela certeza de que o mandariam pentear macacos.

Era de supor que ninguém acudisse ao convite do homem que havia pregado as bentas mãos e os pés de Nosso Senhor Jesus-Cristo numa cruz, mas, às oito horas da noite daquele famoso dia, a casa do Judeu, que fica na rua da frente, a umas dez braças, quando muito, da barranca do rio, já não podia conter o povo que lhe entrava pela porta adentro; coisa digna de admirar-se, hoje que se prendem bispos e por toda parte se desmascaram lojas maçônicas, mas muito de assombrar naqueles tempos em que havia sempre algum temor de Deus e dos mandamentos de Sua Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana.

Lá estavam, em plena judiaria, pois assim se pode chamar a casa de um malvado Judeu, o tenente-coronel Bento de Arruda, comandante da guarda nacional, o capitão Coutinho, comissário das terras, o Dr. Filgueiras, o delegado de polícia, o coletor, o agente da companhia do Amazonas; toda a gente grada, enfim, pretextando uma curiosidade desesperada de saber se, de fato, o Judeu adorava uma cabeça de cavalo mas, na realidade, movida da notícia da excelente cerveja Bass e dos sequilhos que o Isaac arranjara para aquela noite, entrava alegremente no covil de um inimigo da Igreja, com a mesma frescura com que iria visitar um bom cristão.

Era em junho, num dos anos de maior enchente do Amazonas. As águas do rio, tendo crescido muito, haviam engolido a praia e iam pela ribanceira acima, parecendo querer inundar a rua da frente e ameaçando com um abismo de vinte pés de profundidade os incautos transeuntes que se aproximavam do barranco.

O povo que não obtivera convite, isto é, a gente de pouco mais ou menos, apinhava-se em frente a casa do Judeu, brilhante de luzes, graças aos lampiões de querosene tirados da sua loja, que é bem sortida. De torcidas e óleo é que ele devia ter gasto suas patacas nessa noite, pois quantos lampiões bem lavadinhos, esfregados com cinza, hão de ter voltado para as prateleiras da bodega.

Começou o baile às oito horas, logo que chegou a orquestra composta do Chico Carapana, que tocava violão; do Pedro Rabequinha e do Raimundo Penaforte, um tocador de flauta de que o Amazonas se orgulha. Muito pode o amor ao dinheiro, pois que esses pobres homens não duvidaram tocar na festa do Judeu com os mesmos instrumentos com que acompanhavam a missa aos domingos na Matriz. Por isso dois deles já foram severamente castigados, tendo o Chico Carapana morrido afogado um ano depois do baile e o Pedro Rabequinha sofrido quatro meses de cadeia por uma descompostura que passou ao capitão Coutinho a propósito de uma questão de terras. O Penaforte, que se acautele!

Muito se dançou naquela noite e, a falar a verdade, muito se bebeu também, porque em todos os intervalos da dança lá corriam pela sala os copos da tal cerveja Bass, que fizera muita gente boa esquecer os seus deveres. O contentamento era geral e alguns tolos chegavam mesmo a dizer que na vila nunca se vira um baile igual!

A rainha do baile era, incontestavelmente, a D. Mariquinhas, a mulher do tenente-coronel Bento de Arruda, casadinha de três semanas, alta, gorda, tão rosada que parecia uma portuguesa. A D. Mariquinhas tinha uns olhos pretos que tinham transtornado a cabeça de muita gente; o que mais nela encantava era a faceirice com que sorria a todos, parecendo não conhecer maior prazer do que ser agradável a quem lhe falava. O seu casamento fora por muitos lastimado, embora o tenente-coronel não fosse propriamente um velho, pois não passava ainda dos cinquenta; diziam todos que uma moça nas condições daquela tinha onde escolher melhor e falava-se muito de um certo Lulu Valente, rapaz dado a caçoadas de bom gosto, que morrera pela moça e ficara fora de si com o casamento do tenente-coronel; mas a mãe era pobre, uma simples professora régia!

O tenente-coronel era rico, viúvo e sem filhos e tantos foram os conselhos, os rogos e agrados e, segundo outros, ameaças da velha, que D. Mariquinhas não teve outro remédio que mandar o Lulu às favas e casar com o Bento de Arruda. Mas, nem por isso, perdeu a alegria e a amabilidade e, na noite do baile do Judeu, estava deslumbrante de formosura. Com seu vestido de nobreza azul-celeste, as suas pulseiras de esmeraldas e rubis, os seus belos braços brancos e roliços de uma carnadura rija, e alegre como um passarinho em manhã de verão. Se havia, porém, nesse baile, alguém alegre e satisfeito de sua sorte, era o tenente-coronel Bento de Arruda, que, sem dançar, encostado aos umbrais de uma porta, seguia com o olhar apaixonado todos os movimentos da mulher, cujo vestido, às vezes, no rodopiar da valsa, vinha roçar-lhe as calças brancas, causando-lhe calafrios de contentamento e de amor.

Às onze horas da noite, quando mais animado ia o baile, entrou um sujeito baixo, feio, de casacão comprido e chapéu desabado, que não deixava ver o rosto, escondido também pela gola levantada do casaco. Foi direto a D. Mariquinhas, deu-lhe a mão, tirando-a para uma contradança que ia começar.

Foi muito grande a surpresa de todos, vendo aquele sujeito de chapéu na cabeça e mal-amanhado, atrever-se a tirar uma senhora para dançar, mas logo cuidaram que aquilo era uma troça e puseram-se a rir, com vontade, acercando-se do recém-chegado para ver o que faria. A própria mulher do Bento de Arruda ria-se a bandeiras despregadas e, ao começar a música, lá se pôs o sujeito a dançar, fazendo muitas macaquices, segurando a dama pela mão, pela cintura, pelas espáduas, nos quase abraços lascivos, parecendo muito entusiasmado. Toda a gente ria, inclusive o tenente-coronel, que achava uma graça imensa naquele desconhecido a dar-se ao desfrute com sua mulher, cujos encantos, no pensar dele, mais se mostravam naquelas circunstâncias.

— Já viram que tipo? Já viram que gaiatice? É mesmo muito engraçado, pois não é? Mas quem será o diacho do homem? E essa de não tirar o chapéu? Ele parece ter medo de mostrar a cara… Isto é alguma troça do Manduca Alfaiate ou do Lulu Valente! Ora, não é! Pois não se está vendo que é o imediato do vapor que chegou hoje! E um moço muito engraçado, apesar de português! Eu, outro dia, o vi fazer uma em Óbidos, que foi de fazer rir as pedras! Aguente, dona Mariquinhas, o seu par é um decidido! Toque para diante, seu Rabequinha, não deixe parar a música no melhor da história!

No meio de estas e outras exclamações semelhantes, o original cavalheiro saltava, fazia trejeitos sinistros, dava guinchos estúrdios, dançava desordenadamente, agarrando a dona Mariquinhas, que já começava a perder o fôlego e parara de rir. O Rabequinha friccionava com força o instrumento e sacudia nervosamente a cabeça. O Carapana dobrava-se sobre o violão e calejava os dedos para tirar sons mais fortes que dominassem o vozerio; o Penaforte, mal contendo o riso, perdera a embocadura e só conseguia tirar da flauta uns estrídulos sons desafinados, que aumentavam o burlesco do episódio. Os três músicos, eletrizados pelos aplausos dos circunstantes e pela originalidade do caso, faziam um supremo esforço, enchendo o ar de uma confusão de notas agudas, roucas e estridentes, que dilaceravam os ouvidos, irritavam os nervos e aumentavam a excitação cerebral de que eles mesmos e os convidados estavam possuídos.

As risadas e exclamações ruidosas dos convidados, o tropel dos novos espectadores, que chegavam em chusma do interior da casa e da rua, acotovelando-se para ver por sobre a cabeça dos outros; sonatas sinistramente burlescas do sujeito de chapéu desabado, abafavam os gemidos surdos da esposa de Bento de Arruda, que começava a desfalecer de cansaço e parecia já não experimentar prazer algum naquela dança desenfreada que alegrava tanta gente.

Farto de repetir pela sexta vez o motivo da quinta parte da quadrilha, o Rabequinha fez aos companheiros um sinal de convenção e, bruscamente, a orquestra passou, sem transição, a tocar a dança da moda.

Um bravo geral aplaudiu a melodia cadenciada e monótona da Varsoviana, a cujos primeiros compassos correspondeu um viva prolongado. Os pares que ainda dançavam retiraram-se, para melhor poder apreciar o engraçado cavalheiro de chapéu desabado que, estreitando então a dama contra o côncavo peito, rompeu numa valsa vertiginosa, num verdadeiro turbilhão, a ponto de se não distinguirem quase os dois vultos que rodopiavam entrelaçados, espalhando toda a gente e derrubando tudo quanto encontravam. A moça não sentiu mais o soalho sob os pés, milhares de luzes ofuscavam-lhe a vista, tudo rodava em torno dela; o seu rosto exprimia uma angústia suprema, em que alguns maliciosos sonharam ver um êxtase de amor.

No meio dessa estupenda valsa, o homem deixa cair o chapéu e o tenente-coronel, que o seguiu assustado, para pedir que parassem, viu, com horror, que o tal sujeito tinha a cabeça furada. Em vez de ser homem, era um boto, sim, um grande boto, ou o demônio por ele, mas um senhor boto que afetava, por um maior escárnio, uma vaga semelhança com o Lulu Valente. O monstro, arrastando a desgraçada dama pela porta fora, espavorido com o sinal da cruz feito pelo Bento de Arruda, atravessou a rua, sempre valsando ao som da Varsoviana e, chegando à ribanceira do rio, atirou-se lá de cima com a moça imprudente e com ela se atufou nas águas.

Desde essa vez, ninguém quis voltar aos bailes do Judeu.

O TEMPO É CRUEL.

Alguns notórios observadores dos movimentos políticos de Cabo Frio garantem que a reforma administrativa, com as alianças que produziu, pode dar ao governo de Adriano Moreno/Antônio Carlos Vieira o fôlego necessário para atravessar o deserto e chegar às eleições de 2020.

É uma travessia dura para um grupo inexperiente política e administrativamente, que assumiu em um “mandato tampão” e perdeu muito tempo em brigas e confusões intestinas.

Vai ter que abrigar boa parte do seu pessoal extremamente queixoso por ter sido deixado ao relento (o inverno e o vento sudoeste estão aí) e ao mesmo tempo atender a interesses de grupos políticos tradicionais agregados com a reforma administrativa.

Como exercitar todo esse malabarismo, digno de David Copperfield, com recursos, que não permitem mágica, em um estado que vive em crise permanente. Associe essa realidade à falta de tarimba e poderemos ter mais confusões, embaraçando toda a sociedade.

O tempo que era pouco é quase nenhum. Afinal, estamos em junho de 2019 e para enxergar o processo eleitoral basta dobrar a esquina, porque 2020 é logo ali.

Está na hora de correr atrás do prejuízo.

O tempo é um dos adversários a serem vencidos. Talvez o mais cruel.

PEQUENAS DOSES

  • O momento de readaptação da prefeitura de Adriano Moreno ainda não rendeu melhoria nas pesquisas. Não é por acaso que a saída do PSB do governo rendeu muitos apoios dos internautas.
  • Todos os governos municipais eleitos na onda bolsonarista estão com dificuldades para governar e enfrentam queda acentuada na aprovação popular. Cabo Frio é apenas mais um exemplo, acentuando a crise vivida pela cidade nos governos de Alair Corrêa e Marquinhos Mendes.
  • Eleitos para a Alerj a pouquíssimo tempo, Mauro Bernard e Sérgio Luiz Azevedo sofrem com a inexperiência e com a posição política de extrema direita. Absurdo! Ambos votaram em pautas voltadas para emparedar as universidades públicas.
  • A configuração político-eleitoral para 2020, caso seja mantida a proibição de coligação na proporcional, deve mudar radicalmente. Muitos partidos nanicos, em grande parte utilizados para abrigar toda sorte de manobras, podem desaparecer.
  • O PC do B leia-se Carlos Quintão e Filipe Monteiro, não se manifestou oficialmente a respeito da guinada ainda mais a direita do governo de Adriano Moreno. Como a prefeitura de Cabo Frio é agora do Democratas aguarda-se a posição da legenda comunista.
  • O grupo do PC do B, em Cabo Frio, quer muito eleger vereador comprometido política e ideologicamente com o partido. É uma aposta que exige muito trabalho e que pode explicar sua manutenção no arco de alianças, que segura o governo de Adriano Moreno.
  • O ex-deputado federal Paulo César Guia discursa para a platéia quando diz que é candidato a prefeito. Na verdade, ‘Cecé de Jairinho’, também chamado de ‘Mão que salva’ quer mesmo é voltar à câmara federal. O cabofriense se adaptou ao Plenário Ulisses Guimarães e tem muita saudade de Brasília.
  • Apesar de muitas especulações o professor Flávio Rebel continua pilotando a secretaria municipal de esporte e lazer. Ao contrário de outros secretários Rebel é membro emérito da “República do Edifício das Professoras”. Este parece ser o atributo mais importante para permanecer no secretariado.
  • O novo secretário de turismo, professor Paulo Cotias, tem especial carinho pelo projeto do ‘Turismo Histórico’, que, considera um dos pontos relevantes para alavancar o turismo de qualidade, em Cabo Frio.
  • O secretário garantiu ao Blog do Totonho, que pretende reunir a equipe e montar uma gestão compartilhada. Paulo Cotias acompanhou o prefeito Adriano Moreno na visita aos tapetes de sal, da Igreja Católica.

AMAR VOCÊ É COISA DE MINUTOS – Paulo Leminski

Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

SOLIDARIEDADE & DIVERSÃO

Faça a doação de uma cesta básica e ganhe um ingresso família para o Pic Nic da Solidariedade e mais: concorra a uma festa de 40 pessoas na Casa da Árvore Park Lagos.
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Período da arrecadação: 18/06 a 21/07
Ponto de Arrecadação: Casa da Árvore Park Lagos
Data do Pic Nic: 21/07, das 09:30h às 11:30h
Ingresso família: 1 adulto e 1 criança
O sorteio da festa acontecerá no dia do Pic Nic, junto com o sorteio de 5 pacotes de 10 horas de recreação.
Valor do ingresso avulso R$ 30,00
(com 3k de alimento você paga meia entrada)
#casadaarvore #casadaarvoreparklagos #casadaarvorecabofrio

OS TCHUTCHUCAS!!!!!

Apesar de ter gente de diferentes dinastias e raízes políticas o governo comandado pela dupla Adriano Moreno/Antônio Carlos Vieira, está ganhando traços bastante peculiares, cada vez mais seus.

Não há dúvida que a turma do “Edifício Lila” ou “Edifício das Professoras” tem ranço alairzista, que confirma seu DNA provinciano, autoritário e conservador. Essas “qualidades” são sua marca registrada.

A reforma administrativa não está servindo unicamente para o governo compor com outras forças, mas também para se livrar daqueles que considera indesejáveis no seu campo político: nem todos que foram exonerados serão recolocados em seus postos.

Alguns secretários, caso queiram continuar em seus cargos, serão obrigados a “cortarem na própria carne”, ou seja, diminuir o número de contratados e comissionados.

A regra não vale para todos, apenas para aqueles que não pertencem ao núcleo do poder. São os secretários que estão no governo, mas na periferia do poder. De um modo geral não desfrutam da proximidade com o prefeito e com o secretário de fazenda.

Quem quiser permanecer no governo, desfrutando de obesas portarias e mesmo aquelas submetidas a dietas, terá que “comer na mão” de quem realmente manda.

Na mão dos TCHUTCHUCAS!!!!!!!!

PEQUENAS DOSES

  • Prova de popularidade: observadores políticos cabofrienses estão esperando o prefeito Adriano Moreno e seu “1º Ministro”, Antônio Carlos Vieira, passeando na Avenida Nossa Senhora da Assunção, admirando os tapetes de Corpus Christi.
  • Os cargos comissionados ou portariados tem reclamado que tem sido alvo de “espionagem” por parte do “1º Ministro”, que do seu gabinete, na secretaria de fazenda, quer saber de tudo: não vale conversar com a oposição. Parece o retorno do fantasma de Alair Corrêa.
  • Até mesmo os freqüentadores assíduos do “senadinho” as margens do Canal do Itajuru e a turma da 3ª idade do Café per Tutti já tiveram notícias dos ciúmes dos “manda chuvas” da prefeitura. É mesmo muita falta do que fazer ….. e, cá entre nós, tem tanto a ser feito.
  • Freqüentadores habituais dos corredores do vetusto prédio da câmara garantem que o ex-prefeito Marquinhos Mendes, tem, no momento, 13 votos contrários ao parecer do TCE-RJ, que condena suas contas.
  • Marquinhos Mendes tem feito da derrubada do parecer do TCE-RJ seu “mantra” e não larga do pé dos vereadores. Na rua, o ex-prefeito garante que será candidato nas eleições de 2020. E o “Efeito Barroso”?
  • O professor Paulo Cotias, coordenador de história da Universidade Estácio de Sá, é o nome, dentro da estrutura do governo, que assume a secretaria municipal de turismo. Paulo Cotias, recentemente, havia se desfiliado do PSB.
  • O PSB, na noite de terça-feira, emitiu nota oficial declarando sua saída da administração de Adriano Moreno, em função dos rumos políticos, que o governo tomou. A nota oficial dos socialistas cabofrienses está nesta edição do Blog do Totonho.
  • As divergências do empresário hoteleiro Radamés Muniz com o governo de Adriano Moreno são antigas e foram se aprofundando com o tempo. O empresário, durante a campanha, foi o companheiro de chapa do vereador Rafael Peçanha.
  • No final da tarde de ontem Radamés Muniz distribuiu comunicado sobre seu pedido de demissão, nas redes sociais. Nele o ex-secretário faz um balanço da sua participação no governo de Adriano Moreno.
  • Vários setores da oposição têm manifestado indignação com a mesquinhez dos protagonistas do governo Adriano Moreno, que iniciaram processo de perseguição a ex-subsecretária de educação, Denize Alvarenga.
  • A repercussão tem sido péssima para a prefeitura, porque evidencia o caráter autoritário e perseguidor do governo, que teria que estar acima de questões minúsculas. Falta ética, profissionalismo e respeito aos profissionais da educação.

SOL DE OUTONO

Nesse final de outono o sol está encurralado. Mal encontra tempo para permanecer no alto do céu. É o tamanho do dia que o espreme. Fica o astro, tão suntuoso nos idos dias de verão, vagando pela linha do horizonte. Procurando brecha para entrar nas coisas. Mendigando um corpo para fazer suar. Mas como é difícil sobreviver quando as noites longas e frias são como garras!

É nesses tempos que o sol entra pela sala e vai até o final da cozinha. Pobre estrela! A máquina de lavar não é digna de sua grandeza, no entanto o desespero faz até os reis perderem a majestade. Eu detesto o frio e como o sol traz uma leve sensação de calor sou seduzido; entretanto a luz refletida no chão e nas paredes me expulsa. Passo a tarde como um beduíno, guiando minha caravana e carregando os pertences imprescindíveis ao meu trabalho, da sala para a cozinha e finalmente para o quarto dos fundos que eu já quero como a um Oasis.

O sol gira um pouco mais. Beija o interruptor numa cobiça insana por longevidade, ainda que artificial. Faz o rum de dentro da garrafa brilhar na ilusão de um mágico elixir da vida eterna. Estende os raios mais longos em direção a mim. Mas não posso agarrá-lo senão através da crônica que anuncia o seu ocaso.

Migro outra vez. Volto para a sala e monto minha cabana de frente para o que resta do sol de hoje. Não há fim mais belo que esse: das tardes de outono nas beiras do mundo!

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 17 de junho de 2019

O DESLUMBRAMENTO DOS “MENINOS DO EDIFÍCIO LILA”

A falta de traquejo do grupo de Adriano Moreno está levando o governo a sofrer seguidas derrotas, no campo político, inclusive no legislativo, onde deveria estar em “lua de mel” após a reforma administrativa.

A turma que chegou ao poder jogando pedras na política tradicional, chamada nacionalmente de “velha política”, que seria sinônimo de corrupção e aparelhamento do estado, logo percebeu que as coisas não eram exatamente assim.

Aparvalhado, ainda não conseguiu se organizar e estabelecer para dentro do espírito do Estado Democrático de Direito, se fortalecer e criar seus próprios espaços.

O grupo continua choramingando, como uma criança mimada, que ganhou o brinquedo que sempre sonhou, mas não sabe e não compreende os mecanismos que o fazem funcionar.

Falta qualificação política e intelectual para recalibrar e tocar uma máquina administrativa cheia de vícios e problemas, que se acumularam ao longo dos anos.

Como falta habilidade e consistência para a negociação, com os diferentes grupos de interesses da sociedade, a dupla Adriano/Antônio Carlos pode acabar com a máquina, sem conseguir consertá-la.

O deslumbramento dos “Meninos do Edifício Lila” pode acabar por quebrar a cidade.

PEQUENAS DOSES

  • O governo Democrata de Adriano e Antônio Carlos Vieira, por inabilidade, não tem controle político sobre a câmara: parece o PSL de Bolsonaro, no Congresso e se assemelha justamente na truculência. É o mesmo DNA.
  • Os deputados Mauro Bernard e Sérgio Luiz Azevedo apanharam de “cipó camarão”, na câmara. Vovô Bibiu que, durante anos presidiu o conselho, teria ficado impressionado. Razão: a CPI da ALERJ sobre o Hospital da Mulher.
  • A comissão de finanças da câmara aprovou, por unanimidade, o parecer do TCE-RJ, que reprovou as contas de Marquinhos Mendes. O próximo passo é votação no Plenário Oswaldo Rodrigues e o ex-prefeito precisa de 12 votos para barrar o relatório.
  • Marquinhos Mendes tem “corrido coxia” na câmara, tentando conseguir os votos necessários, mas não está fácil. Segundo rumores das paredes históricas do vetusto prédio o governo e o deputado Sérgio Luiz Azevedo estariam trabalhando contra.
  • A Ata da reunião do Conselho do FUNDEB, em 5 de junho, tem 26 páginas. Nelas estão transcritas as falas do secretário de fazenda Antônio Carlos Vieira, que são consideradas verdadeiras “pérolas”. Segundo alguns observadores da política cabofriense o secretário, no mínimo, “perdeu a mão”: um mau sinal.
  • Quem teve acesso diz que o secretário Antônio Carlos Vieira pode se complicar com o que está descrito na Ata. O estrago político para o governo de Adriano Moreno é muito grande, justamente na área dos profissionais da educação.
  • Tudo leva a crer que o ex-secretário de educação Cláudio Leitão e o secretário de fazenda, Antônio Carlos Vieira vão bater de frente nos tribunais. Nesses casos as bancas de advocacia ficam soltando foguetes de felicidade. É a judicialização tomando conta da política brasileira.
  • O secretário de fazenda Antônio Carlos Vieira faz, com o prefeito Adriano Moreno, a dupla que representa o Democratas, em Cabo Frio. Em Búzios, o partido tem o prefeito Henrique Gomes, que migrou do PP de Maluf e Dornelles para a legenda dos “Maia”.
  • O mais engraçado é que tem gente capaz de chamar essa turma de “Nova Política”. Falta completa de análise ou aquela vontade uterina de apoiar quem vai ganhar tão corriqueira em Cabo Frio? Tem governo? Sou a favor e estou dentro mamãe.
  • É óbvio, exceto em um momento de união nacional, que membros do Democratas, marxistas e anarquistas, não podem estar dentro do mesmo governo. Os anarquistas, por definição não poderiam estar em governo algum. Em Cabo Frio, entretanto, tudo pode acontecer.
  • A assembléia geral dos servidores realizada na Praça Tiradentes, em frente à prefeitura, após a reunião com o prefeito Adriano Moreno deliberou aceitar a proposta de reajuste de 8% e também o descongelamento dos triênios.
  • A mesma assembléia geral, entretanto, decidiu a manutenção da greve até o governo cumprir o compromisso de pagar aos servidores da ativa, aposentados e pensionistas o 13° Salário de 2016. Com outras palavras, a crise continua.
  • Apesar do período eleitoral não estar oficialmente aberto, as reuniões partidárias, busca de composições políticas estão “a todo vapor”. Apesar do imenso desgaste, Adriano Moreno pensa em reverter à impopularidade e tentar a reeleição. Não é por acaso que se transferiu de “armas e bagagens” para o PFL, digo, Democratas.
  • A aliança com a Rede Sustentabilidade levou o PC do B a conseguir ocupar a vice-prefeitura, com Filipe Monteiro. A mudança do prefeito para o Democratas e os seguidos conflitos do governo com o movimento sindical deve mudar o patamar dessa aliança.

O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA – José Saramago.

Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar. Então, o primeiro-secretário chamava o segundo-secretário, este chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim por aí fora até chegar à mulher da limpeza, a qual, não tendo ninguém em quem mandar, entreabria a porta das petições e perguntava pela frincha, Que é que tu queres. O suplicante dizia ao que vinha, isto é, pedia o que tinha a pedir, depois instalava-se a um canto da porta, à espera de que o requerimento fizesse, de um em um, o caminho ao contrário, até chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem-estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o qual, escusado se ria dizer, passava a encomenda ao segundo-secretário, este ao terceiro, sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza, que despachava sim ou não conforme estivesse de maré.

Contudo, no caso do homem que queria um barco, as coisas não se passaram bem assim. Quando a mulher da limpeza lhe perguntou pela nesga da porta, Que é que tu queres, o homem, em lugar de pedir, como era o costume de todos, um título, uma condecoração, ou simplesmente dinheiro, respondeu, Quero falar ao rei, Já sabes que o rei não pode vir, está na porta dos obséquios, respondeu a mulher, Pois então vai lá dizer-lhe que não saio daqui até que ele venha, pessoalmente, saber o que quero, rematou o homem, e deitou-se ao comprido no limiar, tapando-se com a manta por causa do frio. Entrar e sair, só por cima dele. Ora, isto era um enorme problema, se tivermos em consideração que, de acordo com a pragmática das portas, ali só se podia atender um suplicante de cada vez, donde resultava que, enquanto houvesse alguém à espera de resposta, nenhuma outra pessoa se poderia aproximar a fim de expor as suas necessidades ou as suas ambições. À primeira vista, quem ficava a ganhar com este artigo do regulamento era o rei, dado que, sendo menos numerosa a gente que o vinha incomodar com lamúrias, mais tempo ele passava a ter, e mais descanso, para receber, contemplar e guardar os obséquios. À segunda vista, porém, o rei perdia, e muito, porque os protestos públicos, ao notar-se que a resposta estava a tardar mais do que o justo, faziam aumentar gravemente o descontentamento social, o que, por seu turno, ia ter imediatas e negativas consequências no afluxo de obséquios. No caso que estamos narrando, o resultado da ponderação entre os benefícios e os prejuízos foi ter ido o rei, ao cabo de três dias, e em real pessoa, à porta das petições, para saber o que queria o intrometido que se havia negado a encaminhar o requerimento pelas competentes vias burocráticas. Abre a porta, disse o rei à mulher da limpeza, e ela perguntou, Toda, ou só um bocadinho. O rei duvidou por um instante, na verdade não gostava muito de se expor aos ares da rua, mas depois reflexionou que pareceria mal, além de ser indigno da sua majestade, falar com um súdito através de uma nesga, como se tivesse medo dele, mormente estando a assistir ao colóquio a mulher da limpeza, que logo iria dizer por aí sabe Deus o quê, De par em par, ordenou. O homem que queria um barco levantou-se do degrau da porta quando começou a ouvir correr os ferrolhos, enrolou a manta e pôs-se à espera. Estes sinais de que finalmente alguém vinha atender, e que portanto a praça não tardaria a ficar desocupada, fizeram aproximar-se da porta uns quantos aspirantes à liberalidade do trono que por ali andavam, prontos a assaltar o lugar mal ele vagasse. O inopinado aparecimento do rei (nunca uma tal coisa havia sucedido desde que ele andava de coroa na cabeça) causou uma surpresa desmedida, não só aos ditos candidatos mas também à vizinhança que, atraída pelo repentino alvoroço, assomara às janelas das casas, no outro lado da rua. A única pessoa que não se surpreendeu por aí além foi o homem que tinha vindo pedir um barco. Calculara ele, e acertara na previsão, que o rei, mesmo que demorasse três dias, haveria de sentir-se curioso de ver a cara de quem, sem mais nem menos, com notável atrevimento, o mandara chamar. Repartido pois entre a curiosidade que não pudera reprimir e o desagrado de ver tanta gente junta, o rei, com o pior dos modos, perguntou três perguntas seguidas, Que é que queres, Por que foi que não disseste logo o que querias, Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me um barco, disse. O assombro deixou o rei a tal ponto desconcertado, que a mulher da limpeza se apressou a chegar-lhe uma cadeira de palhinha, a mesma em que ela própria se sentava quando precisava de trabalhar de linha e agulha, pois, além da limpeza, tinha também à sua responsabilidade alguns, trabalhos menores de costura no palácio como passajar as peúgas dos pajens. Mal sentado, porque a cadeira de palhinha era muito mais baixa que o trono, o rei estava a procurar a melhor maneira de acomodar as pernas, ora encolhendo-as ora estendendo-as para os lados, enquanto o homem que queria um barco esperava com paciência a pergunta que se seguiria, E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu falar dela, perguntou o rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida, E vieste aqui para me pedires um barco, Sim, vim aqui para pedir-te um barco, E tu quem és, para que eu to dê, E tu quem és, para que não mo dês, Sou o rei deste reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei, inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e que eles, sem ti, poderão sempre navegar, Às minhas ordens, com os meus pilotos e os meus marinheiros, Não te peço marinheiros nem piloto, só te peço um barco, E essa ilha desconhecida, se a encontrares, será para mim, A ti, rei, só te interessam as ilhas conhecidas, Também me interessam as desconhecidas quando deixam de o ser, Talvez esta não se deixe conhecer, Então não te dou o barco, Darás. Ao ouvirem esta palavra, pronunciada com tranquila firmeza, os aspirantes à porta das petições, em quem, minuto após minuto, desde o princípio da conversa, a impaciência vinha crescendo, e mais para se verem livres dele do que por simpatia solidária, resolveram intervir a favor do homem que queria o barco, começando a gritar, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. O rei abriu a boca para dizer à mulher da limpeza que chamasse a guarda do palácio a vir restabelecer imediatamente a ordem pública e impor a disciplina, mas, nesse momento, as vizinhas que assistiam das janelas juntaram-se ao coro com entusiasmo, gritando como os outros, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. Perante uma tão iniludível manifestação da vontade popular e preocupado com o que, neste meio tempo, já haveria perdido na porta dos obséquios, o rei levantou a mão direita a impor silêncio e disse, Vou dar-te um barco, mas a tripulação terás de arranjá-la tu, os meus marinheiros são-me precisos para as ilhas conhecidas. Os gritos de aplauso do público não deixaram que se percebesse o agradecimento do homem que viera pedir um barco, aliás o movimento dos lábios tanto teria podido ser Obrigado, meu senhor, como Eu cá me arranjarei, mas o que distintamente se ouviu foi o dito seguinte do rei, Vais à doca, perguntas lá pelo capitão do porto, dizes-lhe que te mandei eu, e ele que te dê o barco, levas o meu cartão. O homem que ia receber um barco leu o cartão de visita, onde dizia Rei por baixo do nome do rei, e eram estas as palavras que ele havia escrito sobre o ombro da mulher da limpeza, Entrega ao portador um barco, não precisa ser grande, mas que navegue bem e seja seguro, não quero ter remorsos na consciência se as coisas lhe correrem mal. Quando o homem levantou a cabeça, supõe-se que desta vez é que iria agradecer a dádiva, já o rei se tinha retirado, só estava a mulher da limpeza a olhar para ele com cara de caso. O homem desceu do degrau da porta, sinal de que os outros candidatos podiam enfim avançar, nem valeria a pena explicar que a confusão foi indescritível, todos a quererem chegar ao sítio em primeiro lugar, mas com tão má sorte que a porta já estava fechada outra vez. A aldraba de bronze tornou a chamar a mulher da limpeza, mas a mulher da limpeza não está, deu a volta e saiu com o balde e a vassoura por outra porta, a das decisões, que é raro ser usada, mas quando o é, é. Agora sim, agora pode-se compreender o porquê da cara de caso com que a mulher da limpeza havia estado a olhar, foi esse o preciso momento em que ela resolveu ir atrás do homem quando ele se dirigisse ao porto a tomar conta do barco. Pensou ela que já bastava de uma vida a limpar e a lavar palácios, que tinha chegado a hora de mudar de ofício, que lavar e limpar barcos é que era a sua vocação verdadeira, no mar, ao menos, a água nunca lhe faltaria. O homem nem sonha que, não tendo ainda sequer começado a recrutar os tripulantes, já leva atrás de si a futura encarregada das baldeações e outros asseios, também é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual.

Andando, andando, o homem chegou ao porto, foi à doca, perguntou pelo capitão, e enquanto ele não chegava deitou-se a adivinhar qual seria, de quantos barcos ali estavam, o que iria ser o seu, grande já se sabia que não, o cartão de visita do rei era muito claro neste ponto, por conseguinte ficavam de fora os paquetes, os cargueiros e os navios de guerra, tão-pouco poderia ser ele tão pequeno que resistisse mal às forças do vento e aos rigores do mar, o rei também havia sido categórico neste ponto, Que navegue bem e seja seguro, foram estas as suas formais palavras, assim implicitamente excluindo os botes, as faluas e os escaleres, os quais, sendo bons navegantes, e seguros, conforme a condição de cada qual, não tinham nascido para sulcar os oceanos, que é onde se encontram as ilhas desconhecidas. Um pouco afastada dali, escondida por trás de uns bidões, a mulher da limpeza correu os olhos pelos barcos atracados, Para o meu gosto, aquele, pensou, porém a sua opinião não contava, nem sequer havia sido ainda contratada, vamos ouvir antes o que dirá o capitão do porto. O capitão veio, leu o cartão, mirou o homem de alto a baixo, e fez a pergunta que o rei se tinha esquecido de fazer, Sabes navegar, tens carta de navegação, ao que o homem respondeu, Aprenderei no mar. O capitão disse, Não to aconselharia, capitão sou eu, e não me atrevo com qualquer barco, Dá-me então um com que possa atrever-me eu, não, um desses não, dá-me antes um barco que eu respeite e que possa respeitar-me a mim, Essa linguagem é de marinheiro, mas tu não és marinheiro, Se tenho a linguagem, é como se o fosse. O capitão tornou a ler o cartão do rei, depois perguntou, Poderás dizer-me para que queres o barco, Para ir à procura da ilha desconhecida, Já não há ilhas desconhecidas, O mesmo me disse o rei, O que ele sabe de ilhas, aprendeu-o comigo, É estranho que tu, sendo homem do mar, me digas isso, que já não há ilhas desconhecidas, homem da terra sou eu, e não ignoro que todas as ilhas, mesmo as conhecidas, são desconhecidas enquanto não desembarcarmos nelas, Mas tu, se bem entendi, vais à procura de uma onde nunca ninguém tenha desembarcado, Sabê-lo-ei quando lá chegar, Se chegares, Sim, às vezes naufraga-se pelo caminho, mas, se tal me viesse a acontecer, deverias escrever nos anais do porto que o ponto a que cheguei foi esse, Queres dizer que chegar, sempre se chega, Não serias quem és se não o soubesses já. O capitão do porto disse, Vou dar-te a embarcação que te convém, Qual é ela, É um barco com muita experiência, ainda do tempo em que toda a gente andava à procura de ilhas desconhecidas, Qual é ele, Julgo até que encontrou algumas, Qual, Aquele. Assim que a mulher da limpeza percebeu para onde o capitão apontava, saiu a correr de detrás dos bidões e gritou, É o meu barco, é o meu barco, há que perdoar-lhe a insólita reivindicação de propriedade, a todos os títulos abusiva, o barco era aquele de que ela tinha gostado, simplesmente. Parece uma caravela, disse o homem, Mais ou menos, concordou o capitão, no princípio era uma caravela, depois passou por arranjos e adaptações que a modificaram um bocado, Mas continua a ser uma caravela, Sim, no conjunto conserva o antigo ar, E tem mastros e velas, Quando se vai procurar ilhas desconhecidas, é o mais recomendável. A mulher da limpeza não se conteve, Para mim não quero outro, Quem és tu, perguntou o homem, Não te lembras de mim, Não tenho idéia, Sou a mulher da limpeza, Qual limpeza, A do palácio do rei, A que abria a porta das petições, Não havia outra, E por que não estás tu no palácio do rei a limpar e a abrir portas, Porque as portas que eu realmente queria já foram abertas e porque de hoje em diante só limparei barcos, Então estás decidida a ir comigo procurar a ilha desconhecida, Saí do palácio pela porta das decisões, Sendo assim, vai para a caravela, vê como está aquilo, depois do tempo que passou deve precisar de uma boa lavagem, e tem cuidado com as gaivotas, que não são de fiar, Não queres vir comigo conhecer o teu barco por dentro, Tu disseste que era teu, Desculpa, foi só porque gostei dele, Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar. O capitão do porto interrompeu a conversa, Tenho de entregar as chaves ao dono do barco, a um ou a outro, resolvam-se, a mim tanto se me dá, Os barcos têm chave, perguntou o homem, Para entrar, não, mas lá estão as arrecadações e os paióis, e a escrivaninha do comandante com o diário de bordo, Ela que se encarregue de tudo, eu vou recrutar a tripulação, disse o homem, e afastou-se.

A mulher da limpeza foi ao escritório do capitão para recolher as chaves, depois entrou no barco, duas coisas lhe valeram aí, a vassoura do palácio e a prevenção contra as gaivotas, ainda não tinha acabado de atravessar a prancha que ligava a amurada ao cais e já as malvadas estavam a precipitar-se sobre ela aos guinchos, furiosas, de goela aberta, como se ali mesmo a quisessem devorar. Não sabiam com quem se metiam. A mulher da limpeza pousou o balde, meteu as chaves no seio, firmou bem os pés na prancha, e, redemoinhando a vassoura como se fosse um espadão dos tempos antigos, fez debandar o bando assassino. Foi só quando entrou no barco que compreendeu a ira das gaivotas, havia ninhos por toda a parte, muitos deles abandonados, outros ainda com ovos, e uns poucos com gaivotinhos de bico aberto, à espera da comida, Pois sim, mas o melhor é mudarem-se daqui, um barco que vai procurar a ilha desconhecida não pode ter este aspecto, como se fosse um galinheiro, disse. Atirou para a água os ninhos vazios, quanto aos outros deixou-os ficar, até ver. Depois arregaçou as mangas e pôs-se a lavar a coberta. Quando acabou a dura tarefa, foi abrir o paiol das velas e procedeu a um exame minucioso do estado das costuras, depois de tanto tempo sem irem ao mar e sem terem de suportar os esticões saudáveis do vento. As velas são os músculos do barco, basta ver como incham quando se esforçam, mas, e isso mesmo sucede aos músculos, se não se lhes dá uso regularmente, abrandam, amolecem, perdem nervo, E as costuras são como os nervos das velas, pensou a mulher da limpeza, contente por estar a aprender tão depressa a arte de marinharia. Achou esgarçadas algumas bainhas, mas contentou-se com assinalá-las, uma vez que para este trabalho não podiam servir a linha e a agulha com que passajava as peúgas dos pajens antigamente, quer dizer, ainda ontem. Quanto aos outros paióis, viu logo que estavam vazios. Que o da pólvora estivesse desmunido, salvo uns pozinhos negros no fundo, que primeiro mais lhe pareceram caganitas de rato, não lhe importou nada, de facto não está escrito em nenhuma lei, pelo menos até onde a sabedoria duma mulher da limpeza é capaz de alcançar, que ir em busca duma ilha desconhecida tenha de ser forçosamente uma empresa de guerra. Já a ralou, e muito, a falta absoluta de munições de boca no paiol respectivo, não por si própria, que estava mais do que acostumada ao mau passadio do palácio, mas por causa do homem a quem deram este barco, não tarda que o sol se ponha, e ele a aparecer-me aí a clamar que tem fome, que é o dito de todos os homens mal entram em casa, como se só eles é que tivessem estômago e sofressem da necessidade de o encher, E se já traz marinheiros para a tripulação, que são uns ogres a comer, então é que não sei como nos iremos governar, disse a mulher da limpeza.

Não valia a pena ter-se preocupado tanto. O sol havia acabado de sumir-se no oceano quando o homem que tinha um barco surgiu no extremo do cais. Trazia um embrulho na mão, porém vinha sozinho e cabisbaixo. A mulher da limpeza foi esperá-lo à prancha, mas antes que ela abrisse a boca para se inteirar de como lhe tinha corrido o resto do dia, ele disse, Está descansada, trago aqui comida para os dois, E os marinheiros, perguntou ela, Não veio nenhum, como podes ver, Mas deixaste-os apalavrados, ao menos, tornou ela a perguntar, Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso, E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se não a conheço, Mas tens a certeza de que ela existe, Tanta como a de ser tenebroso o mar, Neste momento, visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada, É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade, Que pensas fazer, se te falta a tripulação, Ainda não sei, Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. O incêndio do céu ia esmorecendo, a água arroxeou-se de repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar é mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas. Disse o homem, Deixemos as filosofias para o filósofo do rei, que para isso é que lhe pagam, agora vamos nós comer, mas a mulher não esteve de acordo, Primeiro, tens de ver o teu barco, só o conheces por fora, Que tal o encontraste, Há algumas bainhas das velas que estão a precisar de reforço, Desceste ao porão, encontraste água aberta, No fundo vê-se alguma, de mistura com o lastro, mas isso parece que é próprio, faz bem ao barco, Como foi que aprendeste essas coisas, Assim, Assim como, Como tu, quando disseste ao capitão do porto que aprenderias a navegar no mar, Ainda não estamos no mar, Mas já estamos na água, Sempre tive a idéia de que para a navegação só há dois mestres verdadeiros, um que é o mar, o outro que é o barco, E o céu, estás a esquecer-te do céu, Sim, claro, o céu, Os ventos, As nuvens, O céu, Sim, o céu.

Em menos de um quarto de hora tinham acabado a volta pelo barco, uma caravela, mesmo transformada, não dá para grandes passeios. É bonita, disse o homem, mas se eu não conseguir arranjar tripulantes suficientes para a manobra, terei de ir dizer ao rei que já não a quero, Perdes o ânimo logo à primeira contrariedade, A primeira contrariedade foi estar à espera do rei três dias, e não desisti, Se não encontrares marinheiros que queiram vir, cá nos arranjaremos os dois, Estás doida, duas pessoas sozinhas não seriam capazes de governar um barco destes, eu teria de estar sempre ao leme, e tu, nem vale a pena estar a explicar-te, é uma loucura, Depois veremos, agora vamos mas é comer. Subiram para o castelo de popa, o homem ainda a protestar contra o que chamara loucura, e, ali, a mulher da limpeza abriu o farnel que ele tinha trazido, um pão, queijo duro, de cabra, azeitonas, uma garrafa de vinho. A lua já estava meio palmo sobre o mar, as sombras da verga e do mastro grande vieram deitar-se-lhes aos pés. É realmente bonita a nossa caravela, disse a mulher, e emendou logo, A tua, a tua caravela, Desconfio que não o será por muito tempo, Navegues ou não navegues com ela, é tua, deu-ta o rei, Pedi-lha para ir procurar uma ilha desconhecida, Mas estas coisas não se fazem do pé para a mão, levam o seu tempo, já o meu avô dizia que quem vai ao mar avia-se em terra, e mais não era ele marinheiro, Sem tripulantes não poderemos navegar, Já o tinhas dito, E há que abastecer o barco das mil coisas necessárias a uma viagem como esta, que não se sabe aonde nos levará, Evidentemente, e depois teremos de esperar que seja a boa estação, e sair com a boa maré, e vir gente ao cais a desejar-nos boa viagem, Estás a rir-te de mim, Nunca me riria de quem me fez sair pela porta das decisões, Desculpa-me, E não tornarei a passar por ela, suceda o que suceder. O luar iluminava em cheio a cara da mulher da limpeza, É bonita, realmente é bonita, pensou o homem, que desta vez não estava a referir-se à caravela. A mulher, essa, não pensou nada, devia ter pensado tudo durante aqueles três dias, quando entreabria de vez em quando a porta para ver se aquele ainda continuava lá fora, à espera. Não sobrou migalha de pão ou de queijo, nem gota de vinho, os caroços das azeitonas foram atirados para a água, o chão está tão limpo como ficara quando a mulher da limpeza lhe passou por cima o último esfregão. A sereia de um paquete que saía para o mar soltou um ronco potente, como deviam ter sido os do leviatã, e a mulher disse, Quando for a nossa vez faremos menos barulho. Apesar de estarem no interior da doca, a água ondulou um pouco à passagem do paquete, e o homem disse, Mas baloiçaremos muito mais. Riram os dois, depois ficaram calados, passado um bocado um deles opinou que o melhor seria irem dormir, Não é que eu tenha muito sono, e o outro concordou, Nem eu, depois calaram-se outra vez, a lua subiu e continuou a subir, em certa altura a mulher disse, Há beliches lá em baixo, o homem disse, Sim, e foi então que se levantaram, que desceram à coberta, aí a mulher disse, Até amanhã, eu vou para este lado, e o homem respondeu, E eu vou para este, até amanhã, não disseram bombordo nem estibordo, decerto por estarem ainda a praticar na arte. A mulher voltou atrás, Tinha-me esquecido, tirou do bolso do avental dois cotos de vela, Encontrei-os quando andava a limpar, o que não tenho é fósforos, Eu tenho, disse o homem. Ela segurou as velas, uma em cada mão, ele acendeu um fósforo, depois, abrigando a chama sob a cúpula dos dedos curvados, levou-a com todo o cuidado aos velhos pavios, a luz pegou, cresceu lentamente como faz o luar, banhou a cara da mulher da limpeza, nem seria preciso dizer o que ele pensou, É bonita, mas o que ela pensou, sim, Vê-se bem que só tem olhos para a ilha desconhecida, aqui está como as pessoas se enganam nos sentidos do olhar, sobretudo ao princípio. Ela entregou-lhe uma vela, disse, Até amanhã, dorme bem, ele quis dizer o mesmo doutra maneira, Que tenhas sonhos felizes, foi a frase que lhe saiu, daqui a pouco, quando lá estiver em baixo, deitado no seu beliche, vir-lhe-ão à ideia outras frases, mais espirituosas, sobretudo mais insinuantes, como se espera que sejam as de um homem quando está a sós com uma mulher. Perguntava-se se já dormiria, se teria tardado a entrar no sono, depois imaginou que andava à procura dela e não a encontrava em nenhum sítio, que estavam perdidos os dois num barco enorme, o sonho é um prestidigitador hábil, muda as proporções das coisas e as suas distâncias, separa ás pessoas, e elas estão juntas, reúne-as, e quase não se vêem uma à outra, a mulher dorme a poucos metros e ele não soube como alcançá-la, quando é tão fácil ir de bombordo a estibordo.

Tinha-lhe desejado felizes sonhos, mas foi ele quem levou toda a noite a sonhar. Sonhou que a sua caravela ia no mar alto, com as três velas triangulares gloriosamente enfunadas, abrindo caminho sobre as ondas, enquanto ele manejava a roda do leme e a tripulação descansava à sombra. Não percebia como podiam ali estar os marinheiros que no porto e na cidade se tinham recusado a embarcar com ele para ir à procura da ilha desconhecida, provavelmente arrependeram-se da grosseira ironia com que o haviam tratado. Via animais espalhados pela coberta, patos, coelhos, galinhas, o habitual da criação doméstica, debicando os grãos de milho ou roendo as folhas de couve que um marinheiro lhes atirava, não se lembrava de quando os tinha trazido para o barco, fosse como fosse era natural que ali estivessem, imaginemos que a ilha desconhecida é, como tantas vezes o foi no passado, uma ilha deserta, o melhor será jogar pelo seguro, todos sabemos que abrir a porta da coelheira e agarrar um coelho pelas orelhas sempre foi mais fácil do que persegui-lo por montes e vales. Do fundo do porão veio agora um coro de relinchos de cavalos, de mugidos de bois, de zurros de asnos, as vozes dos nobres animais necessários para o trabalho pesado, e como foi que vieram eles, como podem estar numa caravela onde a tripulação humana mal cabe, de súbito o vento deu uma guinada, a vela maior bateu e ondulou, por trás dela estava o que antes não se vira, um grupo de mulheres que mesmo sem as contar se adivinha serem tantas quantos os marinheiros, ocupam-se nas suas coisas de mulheres, ainda não chegou o tempo de se ocuparem doutras, está claro que isto só pode ser um sonho, na vida real nunca se viajou assim. O homem do leme buscou com os olhos a mulher da limpeza e não a viu, Talvez esteja no beliche de estibordo, a descansar da lavagem da coberta, pensou, mas foi um pensar fingido, porque ele bem sabe, embora também não saiba como o sabe, que ela à última hora não quis vir, que saltou para o cais, dizendo de lá, Adeus, adeus, já que só tens olhos para a ilha desconhecida, vou-me embora, e não era verdade, agora mesmo andam os olhos dele a procurá-la e não a encontram. Neste momento o céu cobriu-se e começou a chover, e, tendo chovido, principiaram a brotar inúmeras plantas das fileiras de sacos de terra alinhadas ao longo da amurada, não estão ali porque se suspeite que não haja terra bastante na ilha desconhecida, mas porque assim se ganhará tempo, no dia em que lá chegarmos só teremos que transplantar as árvores de fruto, semear os grãos das pequenas searas que vão amadurecer aqui, enfeitar os canteiros com as flores que desabrocharão destes botões. O homem do leme pergunta aos marinheiros que descansam na coberta se avistam alguma ilha desabitada, e eles respondem que não vêem nem de umas nem das outras, mas que estão a pensar em desembarcar na primeira terra povoada que lhes apareça, desde que haja lá um porto onde fundear, uma taberna onde beber e uma cama onde folgar, que aqui não se pode, com toda esta gente junta. E a ilha desconhecida, perguntou o homem do leme, A ilha desconhecida é coisa que não existe, não passa duma ideia da tua cabeça, os geógrafos do rei foram ver nos mapas e declararam que ilhas por conhecer é coisa que se acabou desde há muito tempo, Devíeis ter ficado na cidade, em lugar de vir atrapalhar-me a navegação, Andávamos à procura de um sítio melhor para viver e resolvemos aproveitar a tua viagem, Não sois marinheiros, Nunca o fomos, Sozinho, não serei capaz de governar o barco, Pensasses nisso antes de ir pedi-lo ao rei, o mar não ensina a navegar. Então o homem do leme viu uma terra ao longe e quis passar adiante, fazer de conta que ela era a miragem de uma outra terra, uma imagem que tivesse vindo do outro lado do mundo pelo espaço, mas os homens que nunca haviam sido marinheiros protestaram, disseram que ali mesmo é que queriam desembarcar, Esta é uma ilha do mapa, gritaram, matar-te-emos se não nos levares lá. Então, por si mesma, a caravela virou a proa em direcção à terra, entrou no porto e foi encostar à muralha da doca, Podeis ir-vos, disse o homem do leme, acto contínuo saíram em correnteza, primeiro as mulheres, depois os homens, mas não foram sozinhos, levaram com eles os patos, os coelhos e as galinhas, levaram os bois, os burros e os cavalos, e até as gaivotas, uma após outra, levantaram voo e se foram do barco transportando no bico os seus gaivotinhos, proeza que não tinha sido cometida antes, mas há sempre uma vez. O homem do leme assistiu à debandada em silêncio, não fez nada para reter os que o abandonavam, ao menos tinham-no deixado com as árvores, os trigos e as flores, com as trepadeiras que se enrolavam nos mastros e pendiam da amurada como festões. Por causa do atropelo da saída haviam-se rompido e derramado os sacos de terra, de modo que a coberta era toda ela como um campo lavrado e semeado, só falta que venha um pouco mais de chuva para que seja um bom ano agrícola. Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser porque está a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetecesse um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro invento, nada mais. As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarda que estas velas içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sopre nas copas e vá encaminhando a caravela ao seu destino. É uma floresta que navega e se balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, começaram a cantar pássaros, deviam estar escondidos por aí e de repente decidiram sair à luz, talvez porque a seara já esteja madura e é preciso ceifá-la. Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com a foice na mão, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra. Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ela a ele, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que não se sabe se este é o de bombordo ou o de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.

PARÓKIA REALIZA FEIJOADA NO SANTA HELENA.

O Parókia, o bloco mais tradicional de Cabo Frio, realiza no próximo dia 14 de julho a terceira feijoada da história do bloco. O evento acontece na Sociedade Musical Santa Helena, a partir das 13h e promete um domingo de muita animação. O almoço de domingo vai ser embalado por uma roda de samba e, claro, a bateria do bloco vai esquentar ainda mais o evento.

Os ingressos já estão sendo vendidos no restaurante Parada Obrigatória (Praça Porto Rocha) por R$25 no primeiro lote – que vai até o dia 26. No segundo lote, os ingressos custam R$30. As bebidas são à parte. A feijoada está limitada para 200 pessoas e é importante já garantir o ingresso para o evento. Você não vai ficar fora dessa, né?!