NOSSO YURI GAGARIN – Rafael Alvarenga.

Da rua posso ver um conjunto de casas grandes, antigas e belas. Paredes brancas, janelas azuis com bordas amarelas, coqueiros, sombras e sabiás cantoras. Frente a tudo isso o que mais me acena é a caixa d’água. Sentada em silêncio no alto de uma torre robusta e protegida por quatro águas de telhado. A certa altura dessa torre há janelas e provavelmente, em seu miolo, tal como um longo intestino, escadas por onde se pode alcançar o topo. Eu queria que fosse a torre do dragão, das tranças, dos cavaleiros, porque gosto da fantasia.

Não era. No entanto me impressionei. Foi que hoje logo cedo dois homens montaram um comprido andaime pela lateral externa da torre. Subiram tudo que podiam. Um deles se sentou sobre uma das águas do telhado e eis que as telhas começaram a ser trocadas. Que coreografia perigosa eles cumpriam! E como nada por aqui é tão alto quanto aquela torre embicada no azul, o homem sentado no telhado se destacava. Era o nosso Yuri Gagarin na lua!

Não havia nada acima dele! Não tinha medo da morte? Talvez necessitasse do salário, mais do que qualquer outra coisa. De vez em quando, ao esperar por uma telha ou ferramenta, aproveitava para olhar ao redor; dali via muito longe, entretanto ainda assim não via o que podia ser seu.

Quando acabou o serviço e seu parceiro desceu pelo andaime, ele permaneceu no telhado. Tirou o boné. Colocou as mãos nos joelhos, no entanto logo desceu também. Não sei o que ele pensou. Mas sei que tem pensamentos que não nos deixam, apesar da altura mais alta.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 18 de junho de 2019

Compartilhe:
RSS
Follow by Email
Facebook
Twitter

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *