SER PEDRA

O gato precisou ser pedra. E não ter rabo, porque pedra não tem rabo. Então o gatoenrolou o que tinha de rabo, juntou tão compacto e imóvel, que o transformou em uma pedra pequena. O gato precisou não piscar. Precisou não ter olhos. E os transformou em duas pedras de quartzo verde. Precisou não lacrimejar. E o que escorria era o sereno que escorre decidido pelas pedras lisas até o chão. Precisou não ter garras. Assim foi que enfiou suas pontas finas até o sabugo na terra fria. Precisou não miar. Mesmo que outro gato, jovem e despreparado, chamasse atenção sem perceber a necessidade de ser pedra. Sequer ronronou. Porque agora ele era pedra e as pedras não miam, tampouco ronronam. Precisou suportar o avanço do sol matutino. E pouco a pouco se aquecer como se aquecem as pedras. E também não reclamar desse ou daquele lugar como não reclamam as pedras. E não procurar uma sombra fresca como não procuram as pedras. O gato tinha que ficar parado como ficam as pedras que não foram jogadas. Precisou deixar crescer o limo e não se enfastiar com as borboletas. Precisou deixar que uma folha da amoreira lhe caísse em cima e suportar a agonia de não retirá-la. Precisou sentir o vento quente e sujo de uma tarde que antecedia o temporal e não escovar o pelo com a língua. Porque as pedras permitem as folhas, não reprimem o vento sujo e não tem língua para escovar o corpo.

Tanta precisão! Mas o gato ia bem. Agora esperava que o filhote de canário caísse do ninho como uma pedra. Porque para ser pedra é preciso também não saber voar.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 28 de maio de 2019

Nota da redação: Ter o talento de Rafael, no Blog, é uma imensa alegria. Que bom!

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