A NOVELA

A novela do Hospital Unilagos tende a se arrastar, porque até agora o governador em exercício Cláudio Castro e o secretário de ciência e tecnologia Sérgio L. Azevedo não deram o ar da graça. Com o país enfrentando cerca de 4 mil mortes diárias a omissão é um desrespeito ao principal dos direitos humanos: a vida!

Alternativas

A epidemia do novo corona vírus é o maior desafio enfrentado pela civilização no século XX. Em Cabo Frio, como no resto do país, a situação é seríssima, e o Hospital Unilagos seria um instrumento importante para o tratamento dos infectados. O prefeito deve estar buscando soluções alternativas talvez no Hospital Santa Izabel e na Clinerp.

Isenção fiscal

Semanalmente o prefeito José Bonifácio dá dicas de boa literatura nas redes sociais. Então uma dica ao prefeito: isenção fiscal para as livrarias, tanto de livros novos como os “sebos”, que se instalarem na cidade. A população e o pequeno livreiro seriam bastante beneficiados.

As lives de Flávio

O tabelião-surfista Flávio Rosa continua atuando politicamente nas redes sociais da Internet. Está prometendo outras lives tão criativas e generosas quanto à primeira, que foi realizada ao som do violino no Morro da Guia. Na live o próprio Flávio ficou bastante emocionado, com a beleza da cidade.

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AUMENTEM O VOLUME DA SUA CLARA NUNES

Tem dias que só Clara Nunes no volume máximo para fazer a gente acordar. Quem nos dera se essa voz firme, da qual ouvido algum é capaz de furtar-se, acordasse também aqueles que teimam em dizer que a pandemia tem que ser enfrentada de peito aberto. Pois, afinal, quais são os peitos dessa linha de frente senão os dos descamisados?

Quem duvida dos números vocifera que eles são ampliados por intuitos ideológicos. E quem diz isso senão os abastados que podem se proteger? Por isso não conhecem quem está morrendo. Os mortos são os mais pobres, em sua grande maioria. Ou seja, os pobres sabem bem, pelo nome, quem está morrendo. Os ricos apenas ouvem falar, e ainda julgam que a informação é falsa.

É esperado que cada classe defenda seus interesses particulares. O desesperador é quando o pobre passa a defender as ideias de seus patrões. Às vezes por medo de perder o emprego. Contudo ainda há um caso pior. É o da classe média baixa que vive arrochada pelas prestações, hipotecas e promissórias, mas como ainda tem crédito na praça, compra. Porque no nosso mundo nós somos avaliados de acordo com o nosso poder de compra.

Eu aumento ainda mais o volume da minha Clara Nunes! Quero ver se assim consigo soterrar os absurdos dos que negam a vacina, dos que crêem que uma contaminação em massa nos fortalecerá, que dos que crêem que a pandemia é uma farsa.

Farsa de quem, gente? Do demônio? Era só o que nos faltava!

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 15 de abril de 2021

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DE RESSACA

Luis Fernando Veríssimo

Hoje, existem pílulas milagrosas, mas eu ainda sou do tempo das grandes ressacas. As bebedeiras de antigamente eram mais dignas, porque você as tomava sabendo que no dia seguinte estaria no inferno. Além de saúde era preciso coragem. As novas gerações não conhecem ressaca, o que talvez explique a falência dos velhos valores. A ressaca era a prova de que a retribuição divina existe e que nenhum prazer ficará sem castigo.

Cada porre era um desafio ao céu e às suas feras. E elas vinham: Náusea, Azia, Dor de Cabeça, Dúvidas Existenciais – as golfadas. Hoje, as bebedeiras não têm a mesma grandeza. São inconsequentes, literalmente. Não é que eu fosse um bêbado, mas me lembro de todos os sábados de minha adolescência como uma luta desigual entre a cuba-libre e o meu instinto de autopreservação. A cuba-libre ganhava sempre. Já dos domingos me lembro de muito pouco, salvo a tontura e o desejo de morte.

Jurava que nunca mais ia beber, mas, antes dos trinta, “nunca mais” dura pouco. Ou então o próximo sábado custava tanto a chegar que parecia mesmo uma eternidade. Não sei o que a cuba-libre fez com meu organismo, mas até hoje quando vejo uma garrafa de rum os dedos do meu pé encolhem.

Tentava-se de tudo para evitar a ressaca. Eu preferia um Alka-Seltzer e duas aspirinas antes de dormir. Mas no estado em que chegava nem sempre conseguia completar a operação. Às vezes dissolvia as aspirinas num copo de água, engolia o Alka-Seltzer e ia borbulhando para a cama, quando encontrava a cama. Mas os métodos variavam.

Por exemplo:

Um cálice de azeite antes de começar a beber – O estômago se revoltava, você ficava doente e desistia de beber.

Tomar um copo de água entre cada copo de bebida – O difícil era manter a regularidade. A certa altura, você começava a misturar a água com a bebida, e em proporções cada vez menores. Depois, passava a pedir um copo de outra bebida entre cada copo de bebida.

Suco de tomate, limão, molho inglês, sal e pimenta – Para ser tomado no dia seguinte, de jejum. Adicionando vodca ficava um bloody-mary, mas isto era para mais tarde um pouco.

Sumo de uma batata, sementes de girassol e folhas de gelatina verde dissolvidas em querosene – Misturava-se tudo num prato pirex forrado com velhos cartões do sabonete Eucalol. Embebia-se um algodão na testa e deitava-se com os pés na direção da ilha de Páscoa. Ficava-se imóvel durante três dias, no fim dos quais o tempo já teria curado a ressaca de qualquer maneira.

Uma cerveja bem gelada na hora de acordar – Por alguma razão o método mais popular.

Canja – Acreditava-se que uma boa canja de galinha de madrugada resolveria qualquer problema. Era preciso especificar que a canja era para tomar. No entanto, muitos mergulhavam o rosto no prato e tinham de ser socorridos às pressas antes do afogamento.

Minha experiência maior era com a cuba-libre, mas conheço outros tipos de ressaca, pelo menos de ouvir falar. Você sabia que o uísque escocês que tomara na noite anterior era paraguaio quando acordava se sentindo como uma harpa guarani. Quando a bebedeira com uísque falsificado era muito grande, você acordava se sentindo como uma harpa guarani e no depósito de instrumentos da boate Catito’s em Assunção.

A pior ressaca era de gim.

Na manhã seguinte, você não conseguia abrir os dois olhos ao mesmo tempo. Abria um e quando abria o outro, o primeiro se fechava. Ficava com o ouvido tão aguçado que ouvia até os sinos da catedral de São Pedro, em Roma.

Ressaca de martini doce: você ia se levantar da cama e escorria para o chão como óleo. Pior é que você chamava a sua mãe, ela entrava correndo no quarto, escorregava em você e deslocava a bacia.

Ressaca de vinho. Pior era a sede. Você se arrastava até a cozinha, tentava alcançar a garrafa de água e puxava todo o conteúdo da geladeira em cima de você. Era descoberto na manhã seguinte imobilizado por hortigranjeiros e laticínios e mastigando um chuchu para alcançar a umidade. Era deserdado na hora.

Ressaca de cachaça. Você acordava sem saber como, de pé num canto do quarto. Levava meia hora para chegar até a cama porque se esquecera como se caminhava: era pé ante pé ou mão ante mão? Quando conseguia se deitar, tinha a sensação que deixara as duas orelhas e uma clavícula no canto.

Olhava para cima e via que aquela mancha com uma forma vagamente humana no teto finalmente se definira. Era o Peter Pan e estava piscando para você.

Ressaca de licor de ovos. Um dos poucos casos em que a lei brasileira permite a eutanásia.
Ressaca de conhaque. Você acordava lúcido. Tinha, de repente, resposta para todos os enigmas do universo. A chave de tudo estava no seu cérebro. Devia ser por isso que aqueles homenzinhos estavam tentando arrombar a sua caixa craniana. Você sabia que era alucinação, mas por via das dúvidas, quando ouvia falar em dinamite, saltava da cama ligeiro.

Hoje não existe mais isto. As pessoas bebem, bebem e não acontece nada. No dia seguinte estão saudáveis, bem-dispostas e fazem até piadas a respeito.

De vez em quando alguns dos nossos se encontram e se saúdam em silêncio. Somos como veteranos de velhas guerras lembrando os companheiros caídos e o nosso heroísmo anônimo.

Estivemos no inferno e voltamos, inteiros.

Um brinde.

E um Engov.

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O Professor José Américo Trindade, conhecido pela alcunha de Babade e o trepidante jornalista Moacir Cabral, dois pilares da boemia cabofriense, fotografados em momento de efusiva comemoração. A madrugada cabofriense agradece as duas figuras emblemáticas pela contribuição ao patrimônio etílico nacional.

Repeteco

O Hospital Unilagos contra a epidemia do covid-19, prometido pelos bolsonaristas ancorados no governo do estado, não deu as caras até hoje, embora a epidemia esteja em momento gravíssimo. Será que teremos a reedição do famoso caso dos respiradores sucateados?

Pode ser Rebel?

O secretário adjunto Carlos Cunha foi elevado ao cargo de secretário de turismo, esporte e lazer. Tudo leva a crer que a secretaria, mais cedo ou mais tarde, será dividida. O ex-secretário Flávio Rebel, que já pilotou a secretaria no governo de Adriano Moreno é um dos nomes cogitados para o cargo de secretário de esportes: Rebel é filiado ao PDT.

De olho em 2022

O ex-secretário Flávio Rosa fez o tradicional périplo midiático na cidade e voltou ao trabalho em Maricá, onde pilota um cartório: nada mal para descansar. O tabelião-surfista cabofriense garante que não vai abandonar a política e segue grudado ao PSB do deputado federal Molon: mais do que nunca de olho em 2022.

Os novos quadros

Flávio Rosa (PSB) e Rafael Peçanha (Cidadania) formam dois quadros que injetam novos ares na política de Cabo Frio. O primeiro trouxe o PSB para o arco político de José Bonifácio e o segundo ao retirar a candidatura consolidou a ascensão do nome de José Bonifácio, no quadro eleitoral de 2020: ambos contribuíram com muita força para a eleição do prefeito.

Frente X Fascismo

Frente Democrática ou Frente de Esquerda, dois modelos políticos diferentes, mas fundamentais para a derrota do neofascismo, nas eleições de 2022. Dentro desse quadro não faz sentido, no processo de preservação do Estado Democrático de Direito, aproximação política com o governador em exercício Cláudio Castro.

As prioridades

O prefeito José Bonifácio garante que tem duas prioridades imediatas: o combate a pandemia e pagar todos os atrasados dos servidores públicos. É fundamental mesmo, mas o prefeito tem também que ter o cuidado de olhar para o futuro. O campo político do atraso já está lotado e tem tempo.

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A NOITE COVIDEANA E SUAS COBRANÇAS

José Correia Baptista

1 – Tanto nesses crimes de corrupção como naqueles bestiais da esfera privada e pública que são cometidos diariamente sempre aparece alguém para vociferar: “esse crime tem de ser punido exemplarmente”. Calma. A Justiça brasileira condena o criminoso a até 300 anos. Mas como a lei estabelece um limite de 30 anos de cadeia, que por uma série de recursos legais pode simplesmente cair pela metade, esse é o horizonte da nossa punição exemplar. Só a alma do criminoso pagará a pena rígida de 300 anos de acorrentamento do espírito. Porque o corpo do criminoso logo cedo estará em liberdade. Essa é a lei brasileira, fruto torto da cultura do “sabe com que está falando?” É a ideia de que o criminoso-ninguém de hoje, poderá amanhã se tornar uma autoridade poderosa e vingadora. É a ascensão possível e rápida da sarjeta para a presidência. Portanto, condescendente com o criminoso. E indiferente com a vítima. É como se vigorasse o pensamento cínico de que “quem está vivo, vivo é; quem morreu… ainda bem que não fui eu.”

A esquerda brasileira paga um preço caro por não ter a coragem de encarar o que o povo brasileiro repudia e já está cansado de ver: a tolerância com o criminoso. Claro, há essa nossa consciência de culpa vira-lata de que o criminoso pode ter uma segunda chance e ser recuperado para a sociedade. Pergunta: e que segunda chance tem a vítima? Sou adepto do sentimento de justiça do Velho Testamento. A minha posição é honesta e firme: estou do lado da vítima. Não aplicaria hoje a punição exemplar que Fidel Castro muitas vezes executou com a aprovação do povo cubano porque talvez sejamos de outra cepa. Embora o ex-governador Ciro Gomes tenha dado uma declaração que dá o que pensar: ele disse que se Bolsonaro der um golpe de Estado morrerá que nem Mussolini. Sabemos como o fascista italiano morreu: depois de ser preso, morto e chutado pelo povo até a desfiguração, foi dependurado de cabeça para baixo numa espécie de posto Ipiranga.

Mas não tenho dúvida em defender que crimes covardes em que a vítima não tem defesa – como o homem ciumento que mata covardemente a ex-namorada ou o marmanjão que mata a porrada uma criança ou o presidente e sua malta que promovem a morte de perto de 400 mil brasileiros ao retirar a ação institucional contra a pandemia (sindemia seria mais adequado) o papel esperado e imprescindível do governo federal levando criminosamente a população a crer que se trata de uma doença natural – devam ter uma punição exemplar. Que pena? Comecemos com a prisão perpétua. Do corpo e da alma.

2 – Quando Hannah Arendt (1906-1975) começou em 1961 a fazer a cobertura do julgamento de Adolf Eichmann por uma Corte israelense em Jerusalém para o jornal The New Yorker e depois em 1963 publicou o livro Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal (minha edição é da Diagrama & Texto, 1983, São Paulo), ela sofreu uma forte campanha de autoridades e intelectuais do establishment judeu por fazer críticas ao que chamou de irregularidades e anomalias do julgamento que então se realizava. O julgamento se dava em território israelense por uma Corte de vencedores contra um criminoso nazista que não podia ter defesa (porque um judeu estaria impedido moralmente de desempenhar essa função), um réu que fora sequestrado na Argentina e julgado por magistrados que tratavam o crime nazista como “contra o povo judeu” em vez de crime “contra a humanidade”. Além da rapidez com que a sentença de morte fora executada sem aceitar pedidos de clemência, inclusive de judeus. Mais, Arendt tocava em questões delicadas, como a da colaboração de lideranças judaicas com os nazistas, de que havia uma classe de judeus que circulava normalmente na Alemanha nazista, os chamados judeus proeminentes, e condenava a atuação dos Conselhos dos Judeus na Alemanha, afirmando textualmente que “cerca de metade deles – dos quatro e meio a seis milhões de pessoas – poderia ter-se salvo caso não tivesse seguido as instruções dos Conselhos.” Arendt estava fora daquele ajuste de contas nacionalista do julgamento de Eichmann em Jerusalém.

Estas observações de Hannah Arendt em nada a fazem compactuar com a Alemanha nazista ou a justificar o que foi o massacre dos judeus. Arendt era judia – fugiu da Alemanha nazista e trabalhou com judeus na França para socorrer os refugiados -, repudiava o extermínio dos judeus, mas se considerava antes de tudo uma cidadã do mundo e queria entender o que representava na história da humanidade o totalitarismo no século XX – uma nova modalidade de governo, que ia além da tirania, e que ela tratou mais detalhadamente em outros livros – e por que havia surgido na Alemanha o nazismo e por que os judeus foram mortos aos milhões sem chance.

 O depoimento de Eichmann é importante para ela na medida em que queria compreender o processo mental de uma pessoa sob o totalitarismo, o que a leva a agir sem empatia com o outro. Porque Eichmann não era pessoalmente um monstro ou um ser diabólico. Era uma peça administrativa do nazismo e ele assim se considerava. Eichmann foi responsável pela condução à morte de milhares e milhares de judeus em campos de extermínio. Mas ele se defendia com o argumento de que a grande maioria que chegava para sua jurisdição estava condenada à morte, que a seleção era feita por médicos da SS no local e que as listas de deportados eram em geral feitas pelos Conselhos dos Judeus nos países de origem ou pela Polícia da Ordem. Tudo hierarquizado burocraticamente. E que ele, Eichmann, e seus homens não tinham autoridade para dizer quem iria viver ou quem iria morrer. Ele acreditava que fazia o ofício dele. Era assim que pensava.

Hannah Arendt classificou as ações de Eichmann de a “banalidade do mal”. O que para o mundo era uma monstruosidade, para ela, no caso representado por Eichmann, significava um problema conceitual. Eichmann era um criminoso de guerra. Mas esse era o problema que levantava polêmica: Eichmann não tinha pessoalmente um temperamento criminoso. Para Arendt, dar o foco certo era essencial porque estava-se diante de um novo governo na história da humanidade: o totalitarismo. Capaz de assassinatos em massa porque elegia “inimigos da humanidade”, eliminando o “inimigo objetivo” da História (como foi o stalinismo, a luta de classes) ou o “inimigo objetivo” da Natureza (como foi o nazismo, com a superioridade de raça). Ao falar da “banalidade do mal”, ou seja, de que havia muitos iguais a Eichmann que cometiam crimes administrativos sem qualquer consciência de culpa, Hannah Arendt queria compreender onde podia-se chegar quando o espaço público e a tradição política eram destruídos. “Este novo tipo de criminoso comete seus crimes sob circunstâncias tais que se torna quase impossível, para ele, saber ou sentir que está agindo mal”, afirmava Hannah Arendt. Ou então: “O problema com Eichmann é que havia muitos iguais a ele e que, a maioria não era nem pervertida nem sádica, eram e ainda são terrível e aterradoramente normais.” Eichmann fazia o seu serviço como um dever. Seguia o imperativo categórico do Terceiro Reich: “Age de tal maneira que se o Führer soubesse da tua ação a aprovaria.” Eichmann comandava o extermínio em massa, mas seria incapaz de matar seu superior para galgar um posto. Ele representava a “banalidade do mal” sob o totalitarismo. Porque só o bem é radical, diria em outro contexto Hannah Arendt.

Considero Hannah Arendt uma pensadora brilhante e leio seus livros desde o tempo de universitário, quando a moda então era o marxista francês Louis Althusser (que também li, mas que não tem a profundidade de Arendt e está preso a um universo de uma nota só). O primeiro livro que li de Hannah Arendt e que recomendo para quem quer começar a conhecer seu pensamento é Entre o passado e o futuro (São Paulo: Editora Perspectiva, 1972). Há bons livros sobre seu pensamento, por exemplo, o de Karin A. Fry, Compreender Hannah Arendt (Rio de Janeiro: Vozes, 2010).

(*) José Correia Baptista é formado em Ciências Sociais e em Letras pela UFF.

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UM SONGO

Manoel de Barros

Aquele homem falava com as árvores e com as águas
ao jeito que namorasse.
Todos os dias
ele arrumava as tardes para os lírios dormirem.
Usava um velho regador para molhar todas as
manhãs os rios e as árvores da beira.
Dizia que era abençoado pelas rãs e pelos
pássaros.
A gente acreditava por alto.
Assistira certa vez um caracol vegetar-se
na pedra.
mas não levou susto.
Porque estudara antes sobre os fósseis lingüísticos
e nesses estudos encontrou muitas vezes caracóis
vegetados em pedras.
Era muito encontrável isso naquele tempo.
Ate pedra criava rabo!
A natureza era inocente.

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